Sono, alimentação e saúde mental podem influenciar tratamento de doenças intestinais

Estudo da USP propõe uma abordagem mais ampla para doenças inflamatórias intestinais, considerando fatores que afetam diretamente a qualidade de vida dos pacientes.

Foto: Imagem gerada pela IA.

Controlar a inflamação intestinal pode não ser suficiente para garantir qualidade de vida aos pacientes com doenças inflamatórias intestinais. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desenvolveram um modelo de medicina de precisão que também considera fatores como sono, alimentação, saúde mental e atividade física no acompanhamento e tratamento dessas condições.

O estudo, publicado na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, adapta o conceito de traços tratáveis às doenças inflamatórias intestinais (DIIs). A proposta busca identificar características que podem ser avaliadas e modificadas conforme as necessidades de cada paciente, ampliando o foco além do controle da inflamação.

Segundo os pesquisadores, muitos pacientes continuam enfrentando fadiga, dificuldades para dormir, ansiedade, depressão e outras limitações mesmo quando a inflamação intestinal está controlada. Por isso, o novo modelo propõe uma avaliação mais completa e individualizada.

As doenças inflamatórias intestinais incluem principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. São condições crônicas que afetam o sistema digestivo e podem provocar sintomas como diarreia, dor abdominal, presença de sangue ou muco nas fezes e perda de peso.

De acordo com o estudo, essas doenças estão relacionadas a diferentes fatores, incluindo predisposição genética, alterações no sistema imunológico e influências ambientais. Pesquisas anteriores do grupo da USP também identificaram associação entre inflamação intestinal ativa, pior qualidade do sono, fadiga e maior frequência de sintomas de ansiedade e depressão.

A proposta desenvolvida pelos pesquisadores organiza os chamados traços tratáveis em três grandes áreas. A primeira envolve aspectos diretamente ligados à doença, como atividade inflamatória, alterações no intestino e resposta aos medicamentos.

O segundo grupo reúne manifestações fora do sistema digestivo e outras condições associadas, como anemia, osteoporose, problemas articulares, lesões na pele, alterações oculares e doenças hepáticas.

Já o terceiro domínio considera fatores psicológicos e comportamentais que podem interferir na evolução da doença e na qualidade de vida. Entre eles estão alimentação, estado nutricional, tabagismo, fadiga, sono, prática de atividade física, adesão ao tratamento, apoio familiar, ansiedade e depressão.

A estratégia prevê identificar esses fatores, definir quais demandam maior atenção e estabelecer intervenções específicas para cada paciente, sem deixar de lado o controle da inflamação intestinal.

O estudo destaca que estar em remissão não significa, necessariamente, recuperar plenamente a qualidade de vida. Com os tratamentos atualmente disponíveis, entre 40% e 50% dos pacientes conseguem manter uma remissão sustentada da doença.

Nesse contexto, os pesquisadores defendem que o acompanhamento deve ir além da ausência de sintomas gastrointestinais. A avaliação da qualidade de vida e da percepção do próprio paciente também pode contribuir para uma compreensão mais completa da evolução clínica.

Outro ponto abordado é a relação entre intestino e cérebro. Processos inflamatórios podem estar associados tanto às doenças intestinais quanto a alterações relacionadas à saúde mental, reforçando a importância de uma abordagem integrada.

Embora ainda seja um modelo conceitual, a proposta já começou a ser incorporada ao Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital das Clínicas da FMUSP. Os primeiros resultados são considerados promissores, mas a equipe pretende acompanhar os pacientes por cerca de um ano para avaliar os impactos sobre a adesão ao tratamento, a evolução clínica e a qualidade de vida.

A pesquisa reforça que o tratamento das doenças inflamatórias intestinais pode exigir um olhar mais amplo sobre o paciente, unindo o controle da inflamação aos cuidados com sono, alimentação, saúde mental e outros fatores que influenciam o bem-estar e a evolução da doença.

Fonte: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

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