Cearense cruza o Brasil de bike rumo à Bolívia e ao Paraguai: “Não estou de férias, esse é meu estilo de vida”

John Edesson, ciclista aventureiro de Fortaleza, esteve no Fala Você e contou sua jornada sobre duas rodas por 26 estados brasileiros e três países da América do Sul.

Ciclista de resistência John Edesson, e Neide Lu, jornalista apresentadora.

Nesta sexta-feira (03), o programa Fala Você Notícias recebeu o ciclista de resistência John Edesson de Souza Pinheiro, de 30 anos, natural de Fortaleza (CE). Sozinho, com uma mochila, sua bicicleta e muita coragem, ele está cruzando o Brasil pedalando, visitando cidades e pontos turísticos nos 26 estados e com destino final em países como Bolívia e Paraguai.

A decisão de viver pedalando nasceu de uma realidade dura: o tempo perdido no transporte coletivo. “Da minha casa pro trabalho eram 22 km, e de ônibus eu levava 2h30. De bike, economizei metade do tempo”, conta. “E no caminho, conheci um grupo de ciclismo que me apresentou trilhas, cachoeiras e outras cidades. Isso despertou minha vontade de conhecer mais.”

Do bairro à estrada: evolução e resistência

“Eu pedalava pelo bairro, depois comecei a ir pra escola de bike, dei uma pausa e voltei já trabalhando com entregas. Fazia entrega de comida até duas e meia da manhã. Já fui assaltado uma vez, mas nunca pensei em desistir”, lembra.

Durante a pandemia, encontrou no pedal uma saída para driblar o desemprego. “Muita gente foi demitida. Eu peguei minha bike e fui trabalhar. O ciclismo se fortaleceu em mim ali.”

50kg de bagagem e muita fé

“Minha bicicleta carrega 50kg. Levo barraca, colchonete, roupa, comida. A bike é minha casa. Já cheguei a carregar 90kg de arroz como chapa em Fortaleza. Isso me ajudou na resistência”, explica.

John relata que já enfrentou temperaturas extremas. “Quase 50°C no Ceará e 1°C no Mato Grosso do Sul. No frio, uso balaclava, toalha, protetor solar, luva. No calor, o treino é no seco, no sol direto. É resistência o tempo inteiro.”

Vários Brasis em um só país

Já percorreu os nove estados do Nordeste, quatro do Sudeste, três do Centro-Oeste e Brasília, além do Tocantins e Paraná. “Cada lugar é um Brasil diferente. A Bolívia me encantou pela cultura indígena, me acolheram bem”, revela.

Na Bolívia, a ideia era explorar a fronteira. “Pedalei pouco, fui mais pra conhecer. Fiquei cinco dias em Cáceres (MT) antes de cruzar. Me hospedei num hotel que nem estava no Google Maps. Ofereci ajuda, fiz fotos, cadastrei, e eles me acolheram super bem.”

No Paraguai, a experiência foi marcante. “Não consegui emprego, me recusaram como funcionário. Mas fui recebido por uma transportadora com muito carinho. O seu Valente, cearense, me recebeu de braços abertos.”

Ciclista mundial John Edesson, e Neide Lu, jornalista apresentadora.

Conexões que a estrada cria

John mantém uma rede com outros ciclistas: “Antes de sair de Fortaleza, eu já recebia viajantes. Agora, troco contatos com ciclistas locais para saber se tem algum suporte. Se não tiver, tudo bem. Já dormi em posto de gasolina, rodoviária, quadras, clubes de futsal, e já fui hospedado em casa ou em hotel. Toda ajuda é bem-vinda.”

Do pedal ao papel

Com tantas histórias acumuladas, ele já está escrevendo um livro. “Escrevi sobre a primeira viagem e, agora, por insistência do pessoal, estou registrando essa. Quero contar tudo, as paisagens, os aprendizados, os encontros. Quem sabe inspire mais gente a viver algo assim.”

2 mil quilômetros em 30 dias: entre trilhas e temperaturas congelantes, ciclista relata superação na BR-030

Com pouco mais de um mês de estrada, John Edesson já percorreu 2 mil quilômetros na atual fase de sua cicloviagem. “Saí no dia 2 de junho, então tem um mês e um dia que tô pedalando. Fiz 2 mil km em 30 dias”, contou. O trajeto mais recente incluiu trechos pela AN-020, passando por cidades como Crateús (CE), Picos (PI), Petrolina (PE), Itaberaba, Mucugê, Tanhaçu e, finalmente, o percurso pela BR-030 até chegar ao Sudoeste baiano.

Mas entre tantas paisagens, ele relembra com emoção e tensão o momento mais marcante da jornada até agora. “Foi quando cheguei na região de fronteira com o Paraguai, peguei 1°C em Dourados, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. Estavam morrendo muitos gados congelados. Árvores também congelando. Eu nunca imaginei que estaria numa estrada nessa temperatura e sem roupa adequada pra isso”, relatou.

Mesmo enfrentando frio extremo sem os equipamentos ideais, John conta que foi salvo pela solidariedade. “Fui colocando roupa em cima de roupa, conhecendo pessoas que me deram roupas de frio. Hoje estou bem mais preparado: tenho corta-vento, blusão, balaclava reforçada... Mas aquele dia foi um ponto alto — emocionante e assustador ao mesmo tempo.”

Natural de Fortaleza, onde 25°C é considerado frio, ele encara agora o desafio de enfrentar temperaturas ainda mais baixas. “Tô pensando em passar por Santa Catarina, onde chega a menos 10°C. Hoje não estou mais desesperado como antes, tô ansioso pra viver isso.”

Mensagem final

John encerrou a entrevista deixando um agradecimento emocionado às equipes que o apoiaram em sua passagem por Guanambi: “Agradeço de coração ao Rick Bike, Léo Bike, Cristiano da Injecar, aos grupos Águias Bike, Coyotes e à Associação de Ciclistas da Serra Geral. Aqui fui muito bem acolhido.”

Para acompanhar a aventura, basta seguir John no Instagram: @johnsemfronteiras

Assista à entrevista completa no canal do Fala Você e acompanhe essa jornada de coragem, resistência e superação.

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