Programa de saúde mental no SUS capacita enfermeiros e gera debate entre entidades

Iniciativa piloto em cidades como Aracaju e Santos treina profissionais da atenção primária para atender casos leves e moderados.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Um programa piloto de capacitação de enfermeiros para atendimento em saúde mental na atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS) tem dividido opiniões entre entidades da área. Desenvolvido pela ImpulsoGov, o projeto busca ampliar o acesso ao cuidado psicológico em municípios como Aracaju e Santos, diante do aumento da demanda por atendimento no país.

Batizado de Programa de Saúde Mental para Atenção Primária à Saúde (Proaps), o modelo prevê 20 horas de formação teórica para enfermeiros e agentes comunitários, com foco no acolhimento estruturado de pacientes com sintomas leves ou moderados. Casos graves seguem encaminhados à rede especializada, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

A metodologia adota diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do próprio SUS. Segundo a ImpulsoGov, resultados iniciais apontam redução média de até 50% nos sintomas depressivos dos pacientes acompanhados e impacto na diminuição das filas por atendimento especializado.

A proposta, no entanto, gerou ressalvas. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) demonstrou preocupação com os limites da delegação de competências, defendendo o fortalecimento estrutural da rede pública, com ampliação de equipes e investimentos nos Caps.

Já o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) informou não ter sido comunicado oficialmente sobre o projeto. A entidade ressaltou que enfermeiros já atuam em casos leves e moderados na atenção primária e destacou que atividades privativas da categoria não devem ser supervisionadas por outros profissionais.

O debate ocorre em um cenário de crescente preocupação com saúde mental: 52% dos brasileiros apontam o tema como um problema relevante, enquanto 43% relatam dificuldades de acesso por custo ou demora no atendimento público.

A ImpulsoGov sustenta que o Proaps não substitui psicólogos ou psiquiatras, mas fortalece o acolhimento inicial na porta de entrada do sistema. Após triagem — que pode incluir instrumentos como o PHQ-9 para rastreio de depressão — o profissional define se o acompanhamento pode ocorrer na unidade básica ou se exige encaminhamento.

O Ministério da Saúde informou que estados e municípios têm autonomia para implementar iniciativas de qualificação profissional dentro do modelo tripartite do SUS. A pasta destacou que o país conta com mais de 6,27 mil pontos de atenção em saúde mental, incluindo cerca de 3 mil Caps, e que o investimento federal na área cresceu 70% entre 2023 e 2025, chegando a R$ 2,9 bilhões no último ano.

Em Aracaju, o projeto capacitou 20 servidores de 14 unidades em 2024, com 472 atendimentos iniciais e redução média de 44% nos sintomas depressivos. Em Santos, onde a iniciativa começou em outubro de 2025, 314 usuários foram atendidos nos primeiros meses, e a prefeitura avalia ampliar a capacitação.

Enquanto municípios testam o modelo para reduzir filas e ampliar o acesso à saúde mental no SUS, entidades profissionais defendem cautela e reforço estrutural da rede especializada, mantendo o debate sobre limites de atuação e qualidade do atendimento.

Fonte: Agência Brasil

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