A agroecologia e a produção orgânica ganham cada vez mais espaço como alternativas para uma agricultura sustentável no semiárido baiano. É nesse contexto que será realizado o 10º Seminário de Agroecologia e Produção Orgânica (SEAPO), promovido pelo IF Baiano Campus Guanambi, com uma programação voltada a agricultores, estudantes, pesquisadores e à comunidade em geral.
Em entrevista ao Fala Você Notícias, nesta sexta (14), a professora e pesquisadora do IF Baiano Dra. Felizarda Bebé explicou a importância do evento, os avanços da produção orgânica na região e os desafios enfrentados pelos agricultores diante das mudanças climáticas, da escassez hídrica e do processo de desertificação.
Agroecologia e produção orgânica: qual é a diferença?
Segundo Felizarda Bebé, a agroecologia é uma ciência que considera aspectos sociais, econômicos e ambientais da produção agrícola. Já a agricultura orgânica é um dos segmentos inseridos nessa perspectiva e segue normas específicas de produção e certificação.
A pesquisadora destacou que produzir de forma agroecológica vai muito além de simplesmente não utilizar agrotóxicos. O sistema envolve cuidados com o solo, a água, a biodiversidade, o manejo das plantas, a organização da propriedade e até as relações entre as pessoas que vivem e trabalham no ambiente rural.
Um dos exemplos apresentados durante a entrevista foi o uso do círculo de bananeiras, técnica utilizada para o tratamento e reaproveitamento da água doméstica, evitando que resíduos sejam lançados diretamente no solo.
Produção orgânica pode gerar renda para a agricultura familiar
A agricultura orgânica também pode representar uma oportunidade econômica para pequenos produtores. Conforme explicou a pesquisadora, o trabalho desenvolvido na região começou há cerca de dez anos e vem apresentando crescimento.
De acordo com Felizarda, o grupo acompanhava aproximadamente 44 agricultores certificados no ano anterior e atualmente já trabalha com mais de 60 produtores em processo de certificação ou já inseridos na produção orgânica.
A pesquisadora ressaltou, porém, que a transição do modelo convencional para o orgânico exige planejamento, mudança de mentalidade e compreensão de que os resultados econômicos não aparecem necessariamente de forma imediata.
Cobertura do solo ajuda a preservar água e biodiversidade
Um dos pontos destacados na entrevista foi a importância da cobertura do solo, especialmente em uma região marcada pelo clima semiárido.
Segundo Felizarda, a cobertura pode contribuir para conservar entre 40% e 50% da umidade do solo, reduzindo a necessidade de água utilizada pelas plantas.
O sistema também trabalha com consórcios de culturas, como milho e feijão, além do uso de plantas para cobertura e produção de bioinsumos.
A pesquisadora explicou que essas práticas ajudam a preservar as propriedades físicas e químicas do solo, aumentar a matéria orgânica e favorecer a atuação dos microrganismos.
Agroecologia como alternativa diante da desertificação
Durante a entrevista, Felizarda Bebé alertou para o processo de desertificação que já atinge áreas da região. Entre os fatores apontados estão o manejo inadequado do solo, a retirada da cobertura vegetal, o excesso de irrigação e a utilização de água com alta concentração de sais.
Para ela, a realidade do semiárido exige uma agricultura adaptada às condições ambientais locais, com economia de água, cobertura do solo, consórcios de culturas e preservação da biodiversidade.
As mudanças climáticas também aumentam os desafios. O crescimento das temperaturas, segundo a pesquisadora, interfere na produção agrícola e pode comprometer o desenvolvimento das plantas.
Orgânico Inteligente une pesquisa, extensão e agricultura
Felizarda também falou sobre o Orgânico Inteligente, programa criado por ela no IF Baiano e voltado à agroecologia e à produção orgânica.
A iniciativa reúne pesquisadores, estudantes e agricultores e atua desde o plantio até a comercialização, buscando aproximar o conhecimento científico da realidade do campo.
O projeto também envolve estudantes do IF Baiano, muitos deles filhos de agricultores, que participam como bolsistas ou voluntários e levam conhecimentos adquiridos na instituição para suas famílias e comunidades.
Alimentos orgânicos e saúde
A relação entre produção orgânica e alimentação saudável também foi abordada na entrevista.
A pesquisadora citou estudos desenvolvidos no IF Baiano, incluindo uma pesquisa que identificou maior concentração de vitamina C em tomate produzido em sistema orgânico em comparação ao convencional.
Ela também destacou a importância do controle da qualidade da água utilizada na produção e dos cuidados necessários para higienização e consumo dos alimentos.
10º SEAPO terá programação ampliada e gratuita
A 10ª edição do SEAPO chega com uma programação ampliada. O evento será realizado no IF Baiano Campus Guanambi, com atividades a partir das 7h30, incluindo palestras, estandes, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), plantas medicinais, mudas, bioinsumos, experiências gastronômicas e apresentações culturais.
Entre os parceiros e instituições que participarão da programação estão representantes do Ministério da Agricultura, Ministério do Desenvolvimento Agrário, CPOrg, SDR, Banco do Nordeste, EFA de Caculé, Cotraf e Centro de Agroecologia.
A expectativa é reunir pelo menos 600 participantes.
A participação é gratuita, mas os interessados precisam realizar inscrição, especialmente para garantir organização das salas e emissão de certificados.
SEAPINHO: crianças também terão espaço na programação
Uma das novidades da edição deste ano é o primeiro SEAPINHO, seminário voltado especialmente para crianças.
A atividade será realizada no segundo dia da programação e pretende aproximar o público infantil da agroecologia por meio de experiências sensoriais, contato com plantas, sementes, flores, aromas e conhecimentos sobre a origem dos alimentos.
Segundo Felizarda, as vagas para a programação principal destinada às crianças já estavam esgotadas durante a entrevista, enquanto algumas oficinas da tarde ainda poderiam ter disponibilidade.
Agricultores receberão certificação de produção orgânica
A programação também contará com uma cerimônia de entrega de certificados para agricultores que conquistaram a certificação de produtores orgânicos.
A certificação participativa é realizada em parceria com a Povos da Mata, fortalecendo a inserção de agricultores da região no mercado de produtos orgânicos.
Música, gastronomia e conhecimento
O evento também terá espaço para cultura e gastronomia. O cantor Wagner Rosa, servidor do IF Baiano e ligado à temática da agroecologia, fará uma apresentação musical com repertório marcado pelo forró e por letras relacionadas ao semiárido e à produção sustentável.
Outra novidade será a experiência gastronômica, com receitas utilizando plantas e ingredientes que nem sempre fazem parte da alimentação cotidiana, como o pudim de capim-santo.
Agroecologia e segurança alimentar
Para Felizarda Bebé, agroecologia, segurança alimentar, saúde e combate à fome estão diretamente relacionados.
A proposta defendida pelo programa é aproximar agricultores e consumidores, fortalecer a produção local e ampliar o acesso a alimentos produzidos de forma sustentável.
A pesquisadora reforçou ainda que o fortalecimento da agricultura orgânica depende de políticas públicas, assistência técnica e apoio dos municípios para que mais agricultores possam realizar a transição para modelos sustentáveis de produção.
Como acompanhar o 10º SEAPO
Quem deseja acompanhar a programação e obter informações sobre inscrições pode acompanhar o Orgânico Inteligente nas redes sociais e acessar o site do programa.
O evento é aberto à comunidade, agricultores, estudantes, pesquisadores e profissionais interessados em agroecologia, produção orgânica, agricultura familiar, sustentabilidade e segurança alimentar.
Assista à entrevista completa com a Dra. Felizarda Bebé no YouTube Neide Lu Fala Você Notícias e descubra os detalhes do 10º SEAPO, os segredos por trás da produção orgânica no semiárido e por que a agroecologia pode ser uma das respostas para o futuro da agricultura na região.
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