Bebês Reborns: Brincadeira inofensiva ou sinal de transtorno psicológico? Psicológa, Maria de Lourdes esclarece

Psicóloga Maria de Lourdes analisa o universo dos bonecos hiper-realistas e revela como eles podem expressar afetos, elaborar perdas e até sinalizar distúrbios emocionais; entenda os limites entre o simbólico e o patológico.

Neide Lu, jornalista, e Maria de Lourdes, psicóloga clínica.

No Fala Você Notícias desta quinta-feira (29), recebemos a psicóloga clínica Maria de Lourdes, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), para discutir um tema que desperta curiosidade e opiniões diversas: os bebês reborns. Afinal, seriam apenas uma brincadeira inofensiva ou podem estar associados a algum tipo de transtorno psicológico?

Segundo Maria de Lourdes, os bebês reborns existem há mais de 20 anos. São bonecas hiper-realistas, criadas por artesãs com riqueza de detalhes, diferentes texturas e, em alguns casos, chegam a custar até R$ 10 mil. Algumas versões são pintadas à mão, têm cabelos naturais implantados e até mecanismos que simulam choro, movimentos, alimentação e outras funções. “É um bebê que já existia, mas que, por influência da mídia, voltou à tona, trazendo à discussão questões que envolvem até mesmo desconfortos emocionais”, comentou a psicóloga.

Para a Terapia Cognitivo-Comportamental, o ato de brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil, pois ajuda a criança a expressar sentimentos, desenvolver habilidades sociais, resolver problemas e criar estratégias para enfrentar desafios. Na prática clínica, esse brincar pode acontecer por meio de dramatizações, jogos de tabuleiro, argila, massinha ou livros infantis.

No entanto, segundo Maria de Lourdes, quando o brincar é transferido para a vida adulta, muitas vezes se torna um tabu. “Há a ideia de que só se pode brincar na infância, e que, na vida adulta, isso é proibido ou inadequado. Mas os adultos também brincam o tempo todo. Colecionar carrinhos, bonecos, itens de filmes, tudo isso são formas de brincar que expressam desejos e vínculos afetivos”, explicou.

A psicóloga destaca que, quando não se compreende que o brincar pode ultrapassar a infância, qualquer manifestação fora desse padrão pode ser vista como patológica. “Freud já dizia que o brincar é uma maneira de corrigir a realidade. Se não vivenciamos plenamente essa fase na infância, é natural que busquemos ressignificar isso na vida adulta. O carrão, a moto, o fanatismo pelo time de futebol também são formas de brincar — o adulto realiza um desejo que ficou ali, latente, desde a infância.”

Ela também cita a psicanalista Melanie Klein, que reforça a importância da brincadeira simbólica ainda na infância. “As meninas brincam com bonecas como se fossem seus bebês. É uma forma de representar e internalizar os papéis da fase adulta. Se essa vivência é interrompida ou mal compreendida, é possível que esse tipo de brincadeira retorne em outro momento, como ocorre com algumas mulheres adultas que cuidam dos reborns como se fossem filhos reais. Isso também acontece com pessoas que cuidam de pets com muito zelo e, muitas vezes, são criticadas por isso”, apontou.

Maria de Lourdes explicou que o brincar se torna patológico quando começa a afetar significativamente a vida da pessoa — física, mental ou financeiramente. “Ser colecionador de bebês reborns já é um hobby caro. Mas quando há uma crença delirante de que o boneco tem vida, de que precisa ser levado ao hospital, isso ultrapassa os limites do saudável. Se você buscar no YouTube, vai encontrar vídeos em que mulheres acordam de madrugada para cuidar do ‘bebê’, usam produtos específicos, compram substâncias que imitam leite e até contratam babás especializadas em reborns”, revelou.

Segundo a psicóloga, um dos aspectos psicológicos mais presentes nesse fenômeno é o apego e o vínculo afetivo. “Há pessoas que vivenciam uma relação simbólica com os bebês reborns como forma de elaborar perdas — como a morte de um filho, por exemplo. Esse vazio é, de certa forma, preenchido com o boneco, criando uma representação emocional que precisa ser acolhida com sensibilidade.”

Ela complementa que, inclusive, os bebês reborns podem ser utilizados dentro da psicoterapia como ferramentas terapêuticas para ajudar famílias a elaborarem lutos e traumas. “Eles também funcionam como um símbolo de ressignificação: de um bebê que se perdeu, de um filho que a pessoa foi ou gostaria de ter sido, ou até mesmo de um filho que desejou ter, mas escolheu não ter.”

Clique no vídeo e confira o bate-papo completo com a psicóloga Maria de Lourdes sobre o universo dos bebês reborns!

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