Grupo Zumb.boys leva arte e conexão cultural ao Cine Xique Xique em Guanambi e Mutãs

Douglas explicou que um dos grupos que serão apresentados em Guanambi é o Zumb.boys, um grande parceiro do Fragmento Urbano, originário da Zona Leste de São Paulo.

Neide Lu, jornalista, Ana Elise e Douglas Iesus, produtores culturais.

No episódio de hoje, 14 de janeiro, o FalaVocêNotícias traz um convidado especial para uma conversa imperdível! O coreógrafo Douglas Iesus que compartilhou todos os detalhes sobre a programação do Cine Xique Xique, em parceria com o grupo Fragmento Urbano.

Douglas conta que, quando morava em São Paulo, fundou, juntamente com Tiago Reis, uma companhia chamada Fragmento Urbano. Ele explicou que o grupo se dedicava a uma pesquisa aprofundada sobre danças afro-diaspóricas e indígenas, com foco em São Paulo. Segundo ele, ao longo de 15 anos, o Fragmento Urbano realizou diversos trabalhos cênicos, circulando tanto no Brasil quanto no exterior, acumulando uma vasta experiência nesse período.

Além disso, Douglas destacou que está há mais de 20 anos envolvido no movimento hip hop e é um pesquisador dedicado às danças urbanas desse estilo. Ele afirmou que, ao longo de sua trajetória, foi se aprofundando em estudos de dança, artes cênicas e teatro, o que o levou a se profissionalizar e, eventualmente, a se tornar também produtor cultural. Esse caminho permitiu que ele começasse a organizar eventos e entendesse a dinâmica de conectar diferentes públicos e fomentar pautas culturais.

“Durante todo o tempo do Grupo Fragmento Urbano, nós não apenas produzimos arte para o público assistir, mas também nos preocupamos muito com a formação das pessoas próximas ao grupo. Assim como neste evento, a galera não só vem dançar, mas também participa de workshops e aulas abertas para a comunidade. Isso é importante porque pode haver outros jovens como eu, que começaram lá atrás, vindos da periferia de São Paulo, que gostam, que querem fazer arte, mas não têm oportunidades”, relatou Douglas.

Ele também mencionou que o Grupo Fragmento Urbano é composto por músicos, dançarinos, produtores, atores e outros profissionais, formando o que ele descreve como uma "família gigantesca". Segundo ele, foi por meio deste grupo que teve a oportunidade de conhecer diversos outros coletivos pelo Brasil, e agora está conseguindo trazer alguns deles para Guanambi.

Ele explicou que um dos grupos que serão apresentados em Guanambi é o Zumb.boys, um grande parceiro do Fragmento Urbano, originário da Zona Leste de São Paulo. Assim como o Fragmento, o Zumb.boys também tem raízes periféricas e aborda questões sociais relevantes em seu trabalho.

Douglas revelou que o grupo participou de um edital da FUNARTE, por meio do prêmio federal Klauss Vianna, e foi contemplado com o projeto "Break pelas Trilhas do Nordeste". Ele destacou que a ideia do projeto se baseia nas conexões ancestrais de muitos integrantes, cujas famílias têm origem no Nordeste:

“Estamos resgatando essas trilhas, buscando nos reconectar, ligando esse São Paulo profundo, periférico e nordestino ao próprio Nordeste. Queremos dialogar sobre o que os povos nordestinos foram construir em São Paulo, sobre os frutos que geraram por lá. Meu pai, por exemplo, é baiano. Então, estar aqui novamente representa um retorno”, destacou Douglas.

Ele contou que, antes de criar o Grupo Fragmento Urbano, começou sua trajetória na dança. Ao participar de cursos profissionalizantes, percebeu a falta de diversidade no meio artístico e o acesso restrito que muitas pessoas tinham às oportunidades que ele estava tendo:

“Foi aí que eu olhei e pensei: ‘Nossa, os coreógrafos são todos brancos, ricos, e não compreendem nossa linguagem, nossa realidade.’ Então, decidi que não podíamos continuar apenas dançando para outras pessoas. Precisávamos criar nossos próprios grupos, contar nossas histórias, nossas narrativas. Eles se apropriam porque gostam do nosso corpo, um corpo moldado nas ruas, preparado pela vivência. É uma relação que construímos na convivência. Quando chegamos às grandes companhias, eles nos adoram. Mas decidimos: ‘Não, vamos fazer isso por nós mesmos.’”

Ele explicou que o projeto também surgiu a partir da linguagem das danças urbanas, uma área pouco explorada por outros grupos na época. O Fragmento Urbano tem uma peculiaridade marcante: a maior parte de seus trabalhos é feita na rua. Ele destacou que essa escolha é um reflexo da realidade das favelas, onde não havia teatros disponíveis:

“Na minha família, por exemplo, meus pais só foram a um teatro pela primeira vez porque eu estava dançando lá. Nunca tinham tido essa experiência antes.”

Douglas também mencionou que o grupo Zumb.boys está vindo apresentar espetáculos como "Dança por Correio" e "Mané Boneco", criados para serem apresentados em espaços públicos e com uma proposta interativa:

“É um espetáculo interativo. As pessoas ficam no meio da apresentação, não precisamos montar um palco separado. O palco é aqui, junto com a gente, olho no olho. As pessoas começam a perceber que algo está acontecendo e formamos rodas. Essa é uma maneira ancestral de organizar o público. Aos poucos, o público se interessa e pergunta: ‘Como eles fazem isso?’” explicou.

Douglas explica que as comunidades negra, indígena e periférica têm se fortalecido por meio do estudo e da conscientização, reconhecendo-se como potências e incentivando os jovens a enxergarem a si mesmos dessa forma. Ele destacou a importância de abandonar a visão imposta por olhares racistas e preconceituosos e, em vez disso, valorizar as próprias perspectivas:“É sobre olhar para nós mesmos e encontrar beleza em nossa cultura. Por exemplo, na dança: será que precisamos, necessariamente, dançar balé? Por que não criar um espetáculo com outra forma de expressão, como o break? Será que as pessoas só vão compreender a arte quando alguém dança balé? Ou será que estão tentando nos colonizar mais uma vez? Por isso, lidamos com essas questões nos educando e educando os jovens”, afirmou.

Programação do Cine Xique Xique

Douglas revelou que o Grupo Zumb.boys, reconhecido por sua pesquisa em dança break, será uma das atrações do Cine Xique Xique. O break, que inclusive passou a integrar os Jogos Olímpicos, será o foco das apresentações. O grupo realizará um espetáculo em Guanambi e outro em Mutãs, além de oficinas para jovens interessados em aprender a dança.

Programação em Guanambi

Dia 17 de novembro (sexta-feira): Oficina de dança: Às 16h, na Praça do Feijão, onde os jovens terão a oportunidade de aprender os movimentos do break; Espetáculo "Dança por Correio": Às 19h, na Praça do Feijão. Festa na Praça do Feijão: Com DJ Marcin, de Guanambi, DJ Afrolatina, de Vitória da Conquista, e a participação do grafiteiro Leon, que está realizando um projeto de grafites temáticos nos muros da cidade. O evento contará ainda com o grupo Trilha Atômica, que apresentará músicas de rap, e performances de danças de baile no estilo pop.

Programação em Mutãs

Dia 18 de novembro (sábado):

Espetáculo "Mané Boneco": Às 10h, na Feira de Mutãs.Oficina de dança: À tarde, com o objetivo de ensinar jovens a explorar o break. Exibição do documentário "Rastros": À noite, encerrando a programação. O documentário, produzido pelo Grupo Zumb.boys, aborda as danças que eles têm explorado e suas conexões culturais. Douglas destacou que a programação é uma oportunidade única para promover o diálogo cultural, engajar a comunidade e oferecer vivências artísticas que valorizem as raízes locais e periféricas.

 Clique no vídeo e assista ao bate-papo completo com o Grupo Zumb.boys! 

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