Surto de raiva em Guanambi: Morte de bovinos em Ceraíma reforça necessidade de prevenção

De acordo com Edmilson Júnior, do ponto de vista da epidemiologia, a raiva é considerada uma doença extremamente grave. A taxa de letalidade da raiva é praticamente de 100% tanto em animais quanto em seres humanos.

Secretário de Saúde de Guanambi Edmilson Junior, Neide Lu, Jornalista, e Eugênia Cotrim, diretora da Vigilância Epidemiológica.

A Vigilância Epidemiológica de Guanambi confirmou a ocorrência de um caso de raiva bovina na área rural do distrito de Ceraíma, após uma moradora relatar a morte de nove bovinos em sua propriedade. O episódio gerou um alerta significativo para os criadores locais, enfatizando a importância de medidas preventivas e a rápida atuação diante de possíveis suspeitas. No Fala Você Notícias desta segunda-feira (06), recebemos Edmilson Júnior, secretário de Saúde de Guanambi, e Eugênia Cotrim, diretora de Vigilância Epidemiológica, que discutiram os detalhes sobre o caso, bem como as estratégias adotadas para conter a disseminação da doença.

De acordo com Edmilson Júnior, do ponto de vista da epidemiologia, a raiva é considerada uma doença extremamente grave. Tanto nos animais quanto nos seres humanos, trata-se de uma doença viral com alta letalidade. Ele afirmou que a taxa de letalidade da raiva é praticamente de 100% tanto em animais quanto em seres humanos. Caso um animal manifeste sintomas da doença, é certo que ele virá a falecer. Da mesma forma, se um ser humano for infectado e não receber o tratamento adequado dentro do tempo necessário, a chance de não sobreviver é igualmente de 100%.

Edmilson relatou que o município de Guanambi foi acionado no dia 18 de dezembro por uma moradora de uma comunidade rural na região de Ceraíma, próximo a Betânia. A diretora de Vigilância Epidemiológica estava realizando um trabalho de divulgação sobre a prevenção da dengue quando recebeu uma mensagem dessa moradora, informando que nove animais de produção haviam falecido na propriedade. Como a saúde dos animais de produção é de responsabilidade da ADAB, Eugênia, a diretora de Vigilância Epidemiológica, acionou imediatamente a ADAB, notificando as mortes de bovinos na região. No dia seguinte, a veterinária da ADAB deslocou-se até o local para realizar uma investigação de campo, coletando o cérebro dos animais mortos e encaminhando a amostra para o Laboratório Central LACEN, da Bahia, que é habilitado para esse tipo de análise. O resultado, que só foi obtido no final do ano, confirmou que a causa da morte foi a raiva animal.

Edmilson explicou que a Vigilância Epidemiológica agiu de maneira preventiva desde 2018, quando foi acionada. No final daquele ano, a Vigilância Epidemiológica notificou a Secretaria de Agricultura e, nos dias 18 e 19 de dezembro, fez a recomendação para que os moradores da localidade que tiveram contato com o animal infectado se vacinassem. "Quero deixar claro para a população que o único mecanismo efetivo de prevenção contra a raiva, tanto em animais quanto em seres humanos, é a vacinação", afirmou ele. Edmilson também destacou que as pessoas foram vacinadas porque tiveram contato com a saliva do animal infectado, já que o mecanismo de transmissão da raiva ocorre por meio da saliva de animais contaminados.

Edmilson relata que a raiva apresenta diferentes ciclos: o urbano, o rural, o silvestre e o aéreo. No ciclo rural, os animais contaminados são, geralmente, os de reprodução, como bovinos, equinos e caprinos, que podem ser infectados pelo vírus da raiva. No ciclo urbano, os animais de interesse para a saúde pública, como cachorros e gatos, além dos seres humanos, também podem ser contaminados. No ciclo aéreo, o principal transmissor é o morcego, enquanto no ciclo silvestre, animais como raposas e canídeos em geral podem estar infectados. Todos esses ciclos têm como mecanismo de transmissão a saliva, razão pela qual as mordeduras de animais exigem recomendação de vacinação. Portanto, caso uma pessoa seja mordida por um gato ou cachorro, há uma recomendação específica de vacinação e observação. Dependendo do tipo de ferimento, da localidade e da condição do animal, pode ser necessário vacinar, ou não. Já no caso de mordeduras de animais silvestres, a recomendação é sempre a de realizar a vacinação.

Segundo Júnior, do ponto de vista epidemiológico, a raiva é uma doença de alta gravidade e de grande interesse para a saúde pública. Um único caso pode ser considerado um surto devido à sua seriedade. Por ter 100% de letalidade e ser de notificação compulsória, qualquer caso de raiva requer atenção redobrada para evitar sua disseminação.

Eugênia Cotrim, diretora da Vigilância Epidemiológica e o secretário de saúde de Guanambi Edmilson Junior.

Júnior esclarece que, no ciclo rural, na maioria das vezes, o agente transmissor da raiva é o morcego, que se alimenta de sangue. O morcego morde os animais de produção e transmite o vírus por meio da saliva. Ele mencionou que, na região de Ceraíma, praticamente todos os animais mortos apresentaram sinais de mordedura de morcegos. Por isso, é fundamental que a ADAB e os órgãos competentes realizem investigações de campo para tentar identificar o habitat e a localização específica dessa população de morcegos, que pode estar atacando os animais.

Júnior respondeu ao vivo a uma pergunta de um ouvinte, que questionou por que o proprietário dos animais, que morreram devido à raiva, não havia vacinado os animais anteriormente. Ele explicou que, geralmente, os proprietários vacinam seus animais, mas, naquela localidade, a vacinação antirrábica não estava atualizada. Júnior ressaltou a importância de os proprietários de animais se atentarem à vacinação contra a raiva, pois ela protege não apenas os animais, mas também os moradores e toda a população. Ele complementou que, do ponto de vista científico, já existem diversos mecanismos de prevenção para várias doenças, e que as medidas preventivas são, muitas vezes, mais baratas e eficazes do que as medidas assistenciais. Em relação à raiva humana, a vacinação é de extrema importância.

Eugênia explicou que a equipe de Vigilância Epidemiológica, em conjunto com a Vigilância Sanitária e o Departamento de Agricultura, foi mobilizada. A primeira informação veio da proprietária dos animais, que imediatamente acionou a ADAB, a qual realizou todo o procedimento de coleta e confirmação das amostras. Eugênia comentou que a proprietária informou que não tinha conhecimento sobre a vacina antirrábica e que, ao vacinarem os animais contra a vacina de várias doenças, ela acreditava que a vacina contra a raiva já estava incluída nesse esquema. Foi somente quando o veterinário esteve na localidade que se percebeu que os animais não haviam sido vacinados contra a raiva.

Eugênia esclarece que a ADAB também informou que a vacinação contra a raiva não é obrigatória em áreas onde não há surto. No entanto, como os proprietários não estavam realizando a vacinação e com o surgimento de surtos, a vacina se torna obrigatória em um raio de dez quilômetros. Ela alertou que todos os produtores devem vacinar seus animais contra a raiva, incluindo os recém-nascidos, para garantir uma boa imunidade no rebanho e evitar que o surto se espalhe para outras propriedades.

Efigênia explicou que nem todos os morcegos transmitem a raiva. Apenas os morcegos vampiros, que se alimentam de sangue, são responsáveis pela transmissão da doença. Ela destacou que é possível distinguir esses morcegos por meio das fezes, que, ao contrário das fezes redondas, típicas de morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas), possuem uma consistência líquida. Essas fezes podem ser encontradas em locais como pedras, casas abandonadas ou troncos de árvores. Efigênia também esclareceu que, se uma galinha for picada por um morcego, não haverá transmissão da raiva, pois o morcego suga o sangue do animal e, após 48 horas, retorna para fazer a alimentação novamente, sem que a doença seja transmitida.

Junior afirmou que, do ponto de vista da saúde pública, os morcegos hematófagos, que se alimentam de sangue, são de maior preocupação. No entanto, os morcegos não hematófagos, embora não representem risco direto à saúde pública, também podem ser contaminados com o vírus da raiva. Ele destacou que, independentemente do tipo de morcego ou de animal silvestre, qualquer pessoa mordida por esses animais deve procurar imediatamente a unidade básica de saúde.

Junior explicou que não há recomendação de vacinação pós-exposição para animais; a única indicação de vacinação após uma mordedura é para o ser humano. Se o animal apresentar sinais clínicos, é fatal, pois a raiva é uma doença com 100% de letalidade.

Ele relatou que, após a visita a Ceraíma, começaram a receber denúncias de mortes de animais com a mesma sintomatologia na região de Morrinhos. Informou que a ADAB coletou dois animais que morreram esta semana na localidade de Morrinhos para análise laboratorial. Embora ainda não esteja confirmado, ele afirmou que há uma forte suspeita de que a causa seja a raiva.

Durante a entrevista, uma ouvinte relatou que seu sobrinho foi mordido por um cachorro e levado ao hospital regional. Junior explicou que, no caso de mordeduras de cães que são passíveis de observação, a recomendação é acompanhar o animal e tratar os ferimentos para evitar infecções secundárias.

Outra ouvinte compartilhou que, certa vez, um morcego entrou em sua casa e, ao tentar capturá-lo com uma sacola, acabou acertando-o nas presas, o que a levou a tomar várias doses de vacina. Em relação a esse episódio, Junior orientou que, em casos semelhantes, a vacinação imediata é necessária devido ao ferimento. Ele enfatizou que essa atitude não deve ser repetida, pois pode ser perigosa.

Junior disse que na região de Ceraíma tem outros casos de animais que foram mortos com suspeita de raiva, são 13 animais de uma localidade e outro animal de outra propriedade. 

Secretário de Saúde de Guanambi Edmilson Junior, Neide Lu, Jornalista, e Eugênia Cotrim, diretora da Vigilância Epidemiológica.

Junior explicou que as suspeitas de raiva não se limitam apenas aos bovinos, mas também afetam os cavalos. Ele afirmou que, em relação à transmissão, o mecanismo da doença ocorre através do contato com a saliva. Por isso, a recomendação é que, caso alguém tenha tido contato com a saliva de animais que apresentem sinais e sintomas da raiva, ou tenha sido mordido, independentemente da condição do animal, deve procurar imediatamente uma unidade de saúde para avaliação. Ele esclareceu que, segundo a literatura científica, não há relatos de transmissão da raiva por meio do consumo de carne ou leite.

Na região de Morrinhos, já foi confirmada a morte de 15 animais, enquanto na região de Mutãs há relatos da morte de dois animais. No entanto, até o momento, os únicos casos confirmados por meio de exames laboratoriais são os de Ceraíma. Hoje, será realizada a coleta do cérebro de dois animais na localidade de Morrinhos para análise. Ele destacou que, como essas localidades fazem fronteira e estão dentro do raio de atuação dos morcegos, é altamente provável que esses casos estejam relacionados.Edmilson afirmou que surtos como este podem causar prejuízos tanto para a saúde humana quanto para a saúde animal e econômica.

Ele explicou que, no caso da raiva animal em relação a cachorros e animais silvestres, a responsabilidade recai sobre a saúde humana, mas quando se trata de animais de produção e de interesse econômico, a responsabilidade é do Ministério da Agricultura, no nível estadual da ADABE, e no nível municipal, da Secretaria de Agricultura.

Ele destacou que a ADAB não abrirá mão do apoio em termos de saúde, e que, com o contato com a veterinária da ADAB, toda a estrutura de saúde foi colocada à disposição, tanto da ADAB quanto da Secretaria de Agricultura. Ele ressaltou que estão atuando de forma intersetorial, aproveitando a expertise e a experiência de cada setor para fornecer uma resposta eficaz para os casos que estão surgindo.

Junior esclareceu que não há recomendação de vacinação em massa. A vacinação antirrábica humana, segundo ele, segue critérios rigorosos e protocolos específicos, e todas as ações são conduzidas com base nesses protocolos. Ele alertou a população que, caso identifiquem sintomas de raiva em seus animais, a orientação é evitar o contato direto com eles e acionar os órgãos competentes, como a ADAB, a Secretaria de Agricultura do Município ou a Secretaria de Saúde do Município.

Edimilson também alertou que, caso animais como bois, vacas, cavalos ou caprinos apresentem sintomas neurológicos — como isolamento, dificuldades motoras (como cambalear), paralisia nos membros, quedas, espasmos musculares, tremores, estiramento do pescoço para trás ou salivação excessiva — a recomendação é procurar imediatamente a unidade básica de saúde caso haja contato com a saliva desses animais ou se ocorra algum tipo de ferimento. A vacinação pode ser indicada nesse caso, após avaliação profissional.

Quando questionado pela jornalista Neide Lu sobre o risco de transmissão caso a saliva de uma vaca contaminada caia no leite durante a ordenha, Junior respondeu que, conforme a literatura científica, não há relatos de transmissão por esse meio. No entanto, ele ressaltou que a transmissão ocorre exclusivamente pela saliva, e em caso de sinais e sintomas da doença, a responsabilidade sanitária exige o isolamento do animal, a suspensão da coleta de leite e a proibição do abate para comercialização da carne.

Ele também reforçou a importância de vacinar todos os animais durante as campanhas de vacinação de cães e gatos, garantindo a proteção tanto dos animais quanto dos seres humanos.

Eugênia relatou que estão realizando a vacinação em cães  e gatos nas localidades onde foram detectados casos de mortes de animais com suspeita de raiva. Além disso, estão visitando as famílias e vacinando cães e gatos que nunca receberam a vacina, bem como reforçando a dose nos animais que já foram vacinados parcialmente. Ela afirmou que, com o caso confirmado, acredita que o Ministério da Saúde pode antecipar a vacinação antirrábica, que normalmente ocorre em agosto e setembro.

De acordo com Edimilson, os casos de raiva nos animais foram comunicados à ADAB, que conduziu a investigação, e também ao Núcleo Regional de Saúde, que representa a saúde estadual na região.

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