Produtores do Perímetro Irrigado de Ceraima, em Guanambi, denunciaram em entrevista exclusiva ao Fala Você Notícias, desta quinta (29), um vazamento antigo na barragem da região, que há mais de 13 anos desperdiça grandes volumes de água. Segundo Marco Antônio “Biludo”, presidente da Cooperativa de Produtores Agrícolas de Ceraima, e o engenheiro agrônomo Renê Rodrigues, o problema, somado à captação da Embasa, coloca em risco a produção agrícola, o abastecimento de mais de 30 cidades e milhares de empregos diretos e indiretos.
Segundo os entrevistados, um vazamento antigo na estrutura da barragem — que já dura cerca de 13 anos — não comprometendo a estrutura da barragem, continua sem solução definitiva, mesmo após projetos técnicos, licitação de obras para o reparo há dois anos por parte da Codevasf, que continua empenhada, a conclusão da obra está atrasada, porque depende de um aditivo solicitado pela empresa vencedora, processo que ainda tramita no órgão. Em períodos em que a barragem esteve cheia, o desperdício chegou a aproximadamente 140 mil litros de água por hora, volume que hoje, período de baixa, ainda gira entre 100 mil litros por hora, escoando para o leito do rio Carnaíba.
O problema se agrava diante da forte estiagem que atinge a região. De acordo com Biludo, nos últimos períodos chuvosos a barragem conseguiu recuperar apenas cerca de 40 a 50 centímetros de volume, mantendo-se atualmente com apenas 30% da sua capacidade, o que corresponde a aproximadamente 15 a 16 milhões de litros de água — reserva considerada insuficiente para garantir a irrigação a longo prazo.
Apesar disso, a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou uma vazão de 160 l/s para o Perímetro Irrigado, mas os produtores, em um esforço de preservação, estão utilizando apenas o que foi determinado pela Agência.
Enquanto os agricultores economizam água e reduzem áreas de plantio, a cooperativa denuncia que a Embasa continua retirando água da barragem de Ceraima para abastecimento humano, mesmo existindo alternativas como a adutora do São Francisco e a barragem do Poço do Magro.
Segundo Biludo, em alguns períodos a Embasa chegou a retirar mais água do que o autorizado, comprometendo ainda mais a reserva que sustenta o perímetro irrigado.
Produção que movimenta milhões e gera empregos
O perímetro irrigado de Ceraima conta hoje com 108 produtores associados, ocupando cerca de 440 hectares e movimentando mais de R$ 13 milhões em produção agrícola somente em 2025.
A diversidade de culturas impressiona: banana, manga, laranja, goiaba, uva, coco, mamão, limão, abacate e até cultivos experimentais como maçã, pera e caqui, que vêm apresentando resultados positivos mesmo no clima quente do sertão.
A produção abastece Guanambi e cerca de 25 a 30 municípios da região, além de enviar parte para centros como Salvador, Belo Horizonte, Campinas e Pernambuco.
Além da segurança alimentar, o projeto gera mais de mil empregos diretos e indiretos, sendo uma das principais fontes de renda da microrregião.
Risco de colapso
Renê Rodrigues alertou que, se a estiagem continuar e a retirada de água não for controlada, a produção poderá ser seriamente comprometida já em 2026.
Os produtores já começaram a reduzir culturas que demandam maior volume de água, o que impacta diretamente a oferta de alimentos e a economia local.
Biludo lembrou ainda o trauma vivido em 2008, quando a barragem chegou ao volume morto e os produtores ficaram cerca de 10 anos sem produção, gerando desemprego, endividamento e abandono de propriedades.
Falta de resposta das autoridades
Segundo a cooperativa, relatórios mensais são enviados à Codevasf informando sobre o vazamento, mas até o momento nenhuma solução definitiva foi apresentada.
Reuniões também já foram realizadas com a Embasa, Governo do Estado e representantes políticos, sem avanços concretos.
Diante da gravidade, os produtores avaliam acionar o Ministério Público Federal contra a EMBASA, cobrando o uso de alternativas como a Adutora do São Francisco e a Barragem do Poço do Magro.
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