Receber a escritora Maria Elvira Laranjeira Scolaro no estúdio da 96 FM, convidada do Fala Você Notícias desta quinta (20), foi reencontrar uma história viva da educação da nossa região. Ex-diretora do Campus XII da UNEB, ela recordou com carinho o tempo em que liderou a instituição, celebrando o reconhecimento dos ex-alunos e a certeza de ter deixado “um pedacinho de si” em cada um deles.
A professora Elvira apareceu para apresentar outra parte do seu legado: o lançamento do livro “Maria Honorata de Jesus”, obra que reconstrói a trajetória de uma mulher que viveu sem nunca ter existido oficialmente — sem registro de nascimento, sem registro de óbito, mas com uma presença que atravessou gerações.
Quem foi Maria Honorata de Jesus?
“Preta, analfabeta, mulher — e dona da casa.” É assim que a escritora define Maria Honorata, nascida por volta de 1869, em Palmas de Monte Alto, que viveu mais de oito décadas com três ramos da família de Elvira.
Mesmo em plena sociedade patriarcal do século XIX e início do XX, Maria Honorata exerceu autoridade e respeito raríssimos: “Ela sabia do poder que tinha. Era empoderada antes dessa palavra existir. Tratava todos como iguais — ricos, brancos, homens ou mulheres.”
A escritora revela que recebeu o nome “Maria” em homenagem à própria Maria Honorata, de quem foi afilhada.
A história que começou a ser contada em 1975
Ainda jovem estudante, Elvira gravou uma entrevista com Maria Honorata em fitas cassete, motivada pelo desejo de preservar aquela memória. Mesmo com perda parcial do material e dificuldades no áudio, três informações ficaram preservadas:
Seu nome completo: Maria Honorata de Jesus
Que não foi escravizada
Que nasceu em Palmas de Monte Alto
A pesquisa só pôde ser estruturada décadas depois, entre 2019 e o pós-pandemia, com entrevistas de oito pessoas que conviveram diretamente com ela.
Uma vida tão longa que atravessou a abolição
Maria Honorata morreu entre 110 e 112 anos, em 1981, no mesmo ano do casamento da escritora. Ela mesma contava: “Eu era moça feita e vi meu povo sambando, dançando, soltando foguete no dia da libertação. Eu vi a festa.” Essa memória oral reforça a grandiosidade de sua jornada.
“A que viveu sem nunca existir”: sem registro de nascimento e sem registro de óbito
A escritora explica que nunca encontrou qualquer documentação: “Ela não tinha registro. Acredito que nunca foi registrada. Nem o óbito existe oficialmente. Ela viveu sem nunca existir diante do Estado.”
Por ironia, uma escola em Monte Alto hoje carrega seu nome — prova de que seu rastro permanece, ainda que o papel tenha falhado.
Lançamento do livro
O primeiro lançamento ocorreu na UNEB, mas de forma compartilhada com outros autores. Agora, o lançamento especial acontecerá na Câmara de Vereadores de Palmas de Monte Alto, nesta sexta-feira (21), às 20h. Um evento que integra a Semana da Consciência Negra e busca apresentar Maria Honorata às novas gerações — muitas das quais nunca ouviram falar dela.
A lição que o livro deixa
Para a escritora, a maior mensagem é sobre consciência de identidade: “Consciência não é de pele, é de espírito. Maria Honorata sabia quem era. Era uma mulher forte, de personalidade, que reinava em qualquer espaço.”
O poema que atravessou o tempo
Durante o programa, a escritora leu o poema “Mamãe Preta”, escrito por Everardes, descendente da primeira família com quem Honorata viveu. Trechos como “No teu colo quente aprendi sorrir” e “Foram tão grandes os que te deram abrigo” emocionaram o público e sintetizaram a dimensão afetiva que ela deixou.
O livro “Maria Honorata de Jesus” é mais que uma obra literária: é um resgate histórico, afetivo e social de uma mulher que, mesmo invisibilizada pelo Estado, marcou profundamente sua comunidade, sua família e agora toda a região.
A entrevista completa está disponível no YouTube — assista no canal Neide Lu Fala Você Notícias e conheça a história surpreendente de Maria Honorata de Jesus.
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