Rota marítima amplia contrabando de cigarros para Norte e Nordeste

Investigações apontam que cargas produzidas no Paraguai percorrem uma extensa rota internacional antes de chegar a estados brasileiros pelas vias marítimas e fluviais.

Foto: Divulgação.

Uma rota marítima internacional utilizada para transportar cigarros contrabandeados vem sendo usada para abastecer mercados ilegais nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Investigações e apreensões realizadas nos últimos anos indicam que cargas produzidas no Paraguai passam por diferentes países da América do Sul antes de serem redistribuídas para estados brasileiros.

O esquema utiliza uma logística que começa no Paraguai e pode incluir o transporte das cargas até o Chile, onde os cigarros são embarcados no porto de Iquique. A partir dali, as embarcações seguem pelo Pacífico, passando por países como Peru, Equador e Colômbia, até alcançar o Canal do Panamá e continuar em direção à Venezuela e ao Suriname.

No Suriname, parte das cargas é transferida para outras embarcações com destino ao Brasil. Os produtos podem chegar por vias marítimas e também por rios da região amazônica, abastecendo mercados clandestinos de estados como Pará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte.

A utilização dessa rota já foi identificada em diferentes operações. Em julho de 2024, uma embarcação abordada no Atlântico, a cerca de 407 quilômetros de Macapá, transportava aproximadamente 1,5 milhão de maços de cigarros de origem paraguaia. A carga, avaliada em R$ 7,5 milhões, tinha como destino a Bahia.

Outro caso ocorreu no Pará, quando uma embarcação saiu de Abaetetuba para encontrar um navio em alto-mar e receber caixas de cigarros. Na ação, foram apreendidas 350 caixas provenientes de Paramaribo, capital do Suriname.

A Polícia Federal também investigou a utilização da rota durante a operação Rota da Fumaça, que apurou a atuação de uma organização criminosa envolvida no contrabando de cigarros e na lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, o esquema contava com compradores, empresas de fachada e pessoas utilizadas para ocultar a movimentação financeira.

Dados do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) apontam que o contrabando de cigarros pode alcançar margem de lucro de até 507%. A diferença de preços entre produtos legais e ilegais, associada à ausência de recolhimento de impostos, contribui para a expansão do mercado clandestino.

O instituto estima que o Paraguai tenha capacidade para produzir cerca de 60 bilhões de cigarros por ano, enquanto o consumo interno seria de aproximadamente 2,5 bilhões. O Brasil aparece como principal destino da produção paraguaia, segundo a estimativa apresentada no levantamento.

Além dos prejuízos à arrecadação, as autoridades alertam que o comércio ilegal provoca concorrência desleal com empresas que atuam dentro da legalidade e pode fortalecer organizações criminosas.

A apreensão realizada em 2024 demonstra a dimensão da estrutura utilizada. A embarcação interceptada tinha mais de 25 metros de comprimento e transportava uma grande quantidade de cigarros sem o selo exigido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A expansão da rota marítima demonstra como grupos envolvidos no contrabando têm adaptado seus métodos para dificultar a fiscalização. O uso de diferentes países, embarcações e caminhos fluviais amplia a complexidade das operações de combate ao comércio ilegal.

Fontes: Polícia Federal (PF), Marinha do Brasil, Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

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