Uma pesquisa internacional identificou novas evidências de que o relógio biológico das células do fígado desempenha papel decisivo na proteção contra a progressão da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), uma das formas mais graves da doença hepática gordurosa ligada à obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.
O estudo, publicado na revista científica Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology (CMGH), analisou os efeitos da remoção do gene BMAL1, considerado um dos principais reguladores do relógio circadiano, nas células responsáveis pelas funções metabólicas do fígado. Os resultados mostraram que a perda desse mecanismo compromete o metabolismo hepático e acelera processos inflamatórios e fibróticos.
Segundo os pesquisadores, o relógio circadiano dos hepatócitos atua como um importante sistema de proteção metabólica, organizando funções essenciais do organismo e reduzindo fatores que contribuem para o agravamento da doença hepática.
Durante os experimentos, os cientistas observaram que a ausência do gene BMAL1 alterou a atividade de milhares de genes ligados ao metabolismo. Os efeitos se tornaram ainda mais evidentes quando os modelos foram submetidos a uma dieta capaz de induzir a MASH.
Entre os principais achados está a identificação de alterações em genes responsáveis pelo controle do colesterol hepático. Os animais com deficiência do relógio biológico apresentaram acúmulo significativo de colesterol no fígado, condição associada ao aumento da inflamação e ao desenvolvimento de lesões hepáticas mais severas.
A pesquisa também registrou níveis mais elevados de fibrose, processo caracterizado pela formação excessiva de tecido cicatricial no fígado e que pode evoluir para cirrose, insuficiência hepática e câncer hepático.
Outro destaque foi a descoberta de uma possível interação entre o gene BMAL1 e a proteína ChREBP, importante reguladora do metabolismo de açúcares e gorduras. Os testes indicaram que a redução de BMAL1 favorece o aumento do colesterol celular, ajudando a explicar a progressão da doença.
Os pesquisadores ampliaram a análise para pacientes humanos e verificaram que indivíduos diagnosticados com MASH apresentavam alterações significativas no sincronismo circadiano do fígado quando comparados àqueles com esteatose hepática simples. O resultado reforça a hipótese de que a desregulação do relógio biológico pode participar diretamente do avanço da enfermidade.
Para os autores, a descoberta abre caminho para novas estratégias terapêuticas voltadas à modulação do relógio circadiano hepático, oferecendo perspectivas promissoras para prevenção e tratamento de uma doença que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e ainda possui opções terapêuticas limitadas.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da University of Lübeck, da Charité – Universitätsmedizin Berlin e de outros centros especializados em metabolismo, hepatologia e cronobiologia. O brasileiro Leonardo de Assis, atualmente professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, foi o primeiro autor da pesquisa.
Fonte: Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology (CMGH) / University of Lübeck
Entre no nosso canal de WhatsApp e receba notícias em tempo real, Clique aqui
Inscreva-se em nosso canal no Youtube, Clique aqui
Comentários