Estudo aponta perdas bilionárias com apostas online (Bets) e expõe desequilíbrio entre arrecadação e impactos sociais

Relatório revela que prejuízos anuais superam em mais de três vezes a arrecadação do setor e pressiona governo por regulação mais rígida

Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini/Proibida reprodução.

Um estudo inédito divulgado por instituições ligadas à saúde pública estimou que os jogos de azar e as apostas online geram perdas sociais e econômicas de R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil. O levantamento, chamado A saúde dos brasileiros em jogo, analisou o crescimento acelerado das bets e seus efeitos sobre saúde mental, orçamento familiar e criminalidade.

De acordo com os pesquisadores, 17,7 milhões de brasileiros apostaram em apenas seis meses, e cerca de 12,8 milhões já estão em situação de risco por problemas relacionados ao jogo. As perdas projetadas incluem custos com suicídios, depressão, tratamentos médicos, seguro-desemprego, encarceramento e perda de moradia. Quase 79% dos prejuízos estão ligados à saúde.

Mesmo com a expansão do setor, a arrecadação ainda não compensa os danos. Embora as bets tenham movimentado R$ 240 bilhões em 2024, a receita tributária somou cerca de R$ 8 bilhões até outubro, valor muito inferior ao impacto estimado. Somente 1% do total arrecadado foi destinado à saúde, sem vinculação direta para ações da Rede de Atenção Psicossocial (Raps).

O estudo também aponta que o setor gera poucos empregos formais e paga salários muito baixos em relação ao faturamento das empresas. Além disso, 84% dos trabalhadores atuam na informalidade. A CPI das Bets no Senado discutiu os efeitos econômicos e potenciais ligações com crimes, mas o relatório final foi rejeitado.

Organizações da saúde defendem medidas inspiradas no modelo britânico, como autoexclusão, fortes restrições à publicidade, aumento da taxação voltada para tratamentos, regras rígidas e campanhas de conscientização. Já empresas do setor, representadas pelo IBJR, são contra ampliar impostos, argumentando que isso fortaleceria o mercado clandestino, onde mais de 50% das apostas já ocorrem.

A redução da arrecadação das bets gera efeitos distintos para o país. Entre os pontos positivos, esse cenário pressiona o governo a fortalecer a regulação, ampliando a proteção de pessoas vulneráveis aos riscos do jogo. A queda nas receitas também pode estimular a criação de políticas de prevenção e tratamento, garantindo que parte dos recursos arrecadados seja direcionada ao cuidado em saúde mental. Além disso, a redução da entrada de dinheiro do setor contribui para ampliar o debate público sobre os impactos sociais das apostas e reforça a necessidade de mecanismos de controle mais rigorosos.

Por outro lado, há efeitos negativos importantes. Uma arrecadação menor significa menos recursos disponíveis para o Estado, ao mesmo tempo em que os prejuízos sociais provocados pelo jogo continuam elevados. Isso também implica perda de verbas que poderiam financiar ações de saúde, fiscalização e combate ao vício, reduzindo a capacidade de resposta do poder público. Outro impacto é o risco de migração das operadoras para o mercado clandestino, que tende a crescer quando a arrecadação cai e o controle se enfraquece, dificultando ainda mais o monitoramento e a proteção dos consumidores.

Fontes: Banco Central  / Agência Brasil

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