Um projeto inovador desenvolvido no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) vem transformando a vida de jovens que cumprem ou cumpriram medidas socioeducativas em Pernambuco. A iniciativa une tecnologia, educação restaurativa e acolhimento social para apoiar adolescentes em situação de vulnerabilidade na reconstrução de suas trajetórias e na reintegração à sociedade.
Inspirado na filosofia africana sawabona-shikoba, que reconhece o valor e a essência de cada indivíduo, o pesquisador Daniel Messias estrutura sua pesquisa a partir da ideia de que “a educação precisa ser restaurativa”, focada nas qualidades das pessoas — e não em seus erros. Com base nesse princípio, o projeto oferece aulas de robótica e pensamento computacional a jovens que deixaram recentemente o sistema socioeducativo ou que ainda o integram.
A primeira turma formou 18 jovens egressos da Funase, enquanto a segunda, ainda em andamento, atende adolescentes que cumprem medidas. Os resultados mostram que a tecnologia se tornou um meio poderoso para restaurar autoestima, despertar talentos e mostrar novos caminhos profissionais. Segundo os responsáveis pela formação, muitos desses jovens chegam acreditando que não têm capacidade de se inserir no mercado, mas descobrem que possuem criatividade, visão crítica e habilidade para solucionar problemas — competências altamente valorizadas no setor tecnológico.
Os pesquisadores também destacam que, ao contrário de jovens de contextos privilegiados, esses adolescentes apresentam um olhar inovador, resultado da vivência de desafios profundos e diversos. A expectativa é que, na próxima etapa, o projeto avance para a criação de uma startup que gere oportunidades reais de trabalho e renda, diminuindo o risco de reincidência e oferecendo um suporte que o sistema socioeducativo não fornece quando o jovem deixa a instituição.
O ponto falho é a ausência de acompanhamento após a saída, um dos principais fatores que levam muitos a retornar ao crime, já que organizações criminosas oferecem o apoio básico que o Estado não proporciona. Por isso, além das aulas de robótica, o projeto vai aplicar testes vocacionais para mapear habilidades e orientar trajetórias profissionais, aproveitando a localização estratégica no Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia do Brasil.
Superar o preconceito também faz parte da transformação proposta. No início, a presença desses jovens no Cesar gerava estranhamento, mas Messias, que também já passou pelo sistema socioeducativo e conhece a realidade que vivem, destaca que hoje eles produzem inovação e mostram na prática que pertencem a espaços de conhecimento e tecnologia.
O projeto, portanto, demonstra que investir em educação, acolhimento e oportunidades concretas é uma ferramenta essencial para evitar a exclusão social e construir caminhos seguros para a reinserção desses jovens, oferecendo perspectivas reais de futuro.
Fontes: Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) / Funase / CNJ / Ministério da Justiça
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