Uso irregular de antibióticos cresce no Brasil e OMS alerta para risco de 10 milhões de mortes anuais até 2050

A resistência antimicrobiana avança, impulsionada pela automedicação, vendas ilegais e prescrições inadequadas; especialistas apontam caminhos e orientam como a população deve agir.

Foto: WILLIAM WEST / AFP.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um alerta mundial ao divulgar que a resistência antimicrobiana pode causar até 10 milhões de mortes por ano até 2050, superando o câncer como principal causa de óbitos. Atualmente, mais de 1,27 milhão de pessoas morrem anualmente em decorrência de infecções causadas por bactérias resistentes, mostrando que o problema já é uma realidade global.

No Brasil, o panorama não é diferente. Dados da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) revelam que um terço da população ainda consome antibióticos sem receita médica, desrespeitando as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pequenas farmácias continuam vendendo esses medicamentos de forma irregular, respondendo por 27% das aquisições ilegais. Entre os antibióticos mais utilizados estão a azitromicina — com 21 milhões de unidades vendidas no primeiro semestre de 2025, alta de 5% — e a cefalexina — com 19,8 milhões de unidades, queda de 4,5%. Ambos são indicados para infecções específicas, mas frequentemente utilizados de forma inadequada, sobretudo em casos virais, nos quais não possuem qualquer eficácia.

O novo alerta global da OMS reforça a necessidade urgente de ações coordenadas entre governos, instituições de saúde e sociedade civil. A entidade defende ampliação de campanhas educativas, investimentos em exames diagnósticos, programas de conscientização e políticas mais rígidas de fiscalização contra vendas irregulares. Além disso, a integração entre diferentes áreas da saúde é considerada fundamental para conter o avanço de bactérias resistentes.

Apesar dos esforços, desafios sérios persistem. O uso inadequado de antibióticos causa falhas terapêuticas, danos ao fígado e rins, compromete a microbiota intestinal e agrava quadros infecciosos. A resistência antimicrobiana já coloca em risco tratamentos essenciais como cirurgias, quimioterapias e transplantes. Falhas hospitalares também preocupam: 20% das unidades, segundo a SBI, não ajustam corretamente dosagens e 87,7% prescrevem sem exames laboratoriais adequados, aumentando erros e custos das internações.

Diante desse quadro, especialistas alertam que a população precisa adotar medidas imediatas. Nunca usar antibióticos sem prescrição médica é essencial, pois somente profissionais habilitados podem identificar se a infecção é bacteriana. Outro ponto crucial é cumprir o tratamento até o fim, evitando interrupções que favorecem a seleção de bactérias resistentes. Evitar pressionar médicos por antibióticos em casos virais, como gripes e resfriados, também é fundamental. A população deve denunciar farmácias que vendem antibióticos sem receita e seguir corretamente horários e dosagens. Manter exames atualizados, quando possível, contribui para diagnósticos mais precisos e uso racional dos medicamentos.

O alerta da OMS deixa claro que combater a resistência antimicrobiana exige ações governamentais e responsabilidade individual. Sem mobilização coletiva, o mundo pode enfrentar uma das maiores crises sanitárias das próximas décadas.

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

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