Um estudo preliminar apresentado no congresso anual da American Heart Association revelou que o uso prolongado de melatonina — hormônio natural usado em suplementos para tratar insônia — está associado a maior risco de insuficiência cardíaca, hospitalização e morte em pessoas com insônia crônica.
A pesquisa, liderada por Ekenedilichukwu Nnadi, analisou dados de 130.828 adultos com insônia crônica por meio do banco internacional TriNetX. Os participantes foram divididos entre usuários e não usuários de melatonina. Aqueles que tomaram o suplemento por um ano ou mais tiveram 90% mais chances de desenvolver insuficiência cardíaca (4,6% contra 2,7%) e três vezes mais risco de hospitalização (19% contra 6,6%). Além disso, apresentaram quase o dobro de risco de morte por qualquer causa (7,8% contra 4,3%) ao longo de cinco anos.
Nos países que exigem prescrição médica, como o Reino Unido, pessoas que receberam duas ou mais prescrições de melatonina com intervalo de 90 dias tiveram 82% mais risco de insuficiência cardíaca do que aquelas que nunca usaram o hormônio.
Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que o estudo não prova uma relação de causa e efeito, sendo necessária mais investigação científica sobre a segurança cardiovascular da substância.
“Os suplementos de melatonina podem não ser tão inofensivos como se imagina. Se confirmado, isso pode mudar a forma como os médicos orientam os pacientes”, afirmou Nnadi.
Uso e riscos conhecidos
A melatonina é produzida naturalmente pela glândula pineal e regula o ciclo sono-vigília. Suplementos sintéticos são vendidos sem prescrição médica em países como Brasil e Estados Unidos.
Segundo o neurologista Lucio Huebra, membro da Academia Brasileira do Sono, a melatonina é geralmente bem tolerada, mas pode causar sonolência matinal, tontura, náusea, cefaleia e alteração no ritmo biológico se usada em horários incorretos.
Huebra reforça que o uso deve ser restrito a casos específicos, como:
- distúrbios do ritmo circadiano;
- jet lag;
- irregularidade do sono em pessoas cegas;
- controle de sintomas de parassonias (ex.: distúrbio comportamental do sono REM).
Para a insônia crônica, o tratamento inicial deve priorizar higiene do sono e terapia cognitivo-comportamental, deixando os indutores do sono — incluindo a melatonina — apenas para uso curto e supervisionado.
Fontes: American Heart Association / InfoMoney / Folha de S.Paulo / Academia Brasileira do Sono.
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