Desde 2003, Fernando Henrique dos Santos, 42 anos, convive com fortes dores, principalmente na coluna. Diagnosticado inicialmente com artrite reumatoide e, mais recentemente, com espondilite anquilosante, ele precisa receber o medicamento infliximabe, aplicado por infusão a cada oito semanas. O remédio, de alto custo, é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas o acesso ao tratamento é dificultado pela ausência de centros especializados de aplicação.
Residente em Guarulhos (SP), Santos já precisou se deslocar até Mogi das Cruzes e, posteriormente, para uma clínica particular na zona leste da capital paulista, onde o procedimento é feito por meio de convênio médico. “Pelo SUS eu consigo o remédio, mas não consigo aplicar. A maior dificuldade não é o deslocamento, e sim a falta de estrutura para o tratamento”, relatou.
O vazio entre o remédio e a aplicação
Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a situação vivida por Fernando se repete em diversas regiões do país. Apesar de o SUS disponibilizar gratuitamente medicamentos biotecnológicos, como os imunobiológicos usados no tratamento de doenças autoimunes e raras, a rede pública não dispõe de protocolos claros nem de centros de infusão suficientes para garantir a aplicação correta.
“O paciente pega o medicamento, mas não tem onde fazer a aplicação com segurança. Esse é o vazio do sistema”, afirmou o reumatologista Vander Fernandes, coordenador da Comissão de Centros de Terapia Assistida da SBR, em entrevista durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado em setembro, em Salvador (BA).
Por que os centros são fundamentais
Muitos desses medicamentos exigem preparo especializado, manutenção em cadeia de frio e infusões que podem durar de duas a seis horas. Além disso, a aplicação deve ser acompanhada por equipe treinada para lidar com reações adversas e intercorrências.
“Há mais de 25 anos o SUS incorporou essas tecnologias, mas nunca estruturou a rede de aplicação. São remédios que, muitas vezes, precisam de diluição, de pré-medicação e de monitoramento durante o uso. Tratar apenas como entrega de remédio é um erro grave”, destacou Fernandes.
A ausência de locais adequados pode comprometer a eficácia do medicamento, já que o armazenamento incorreto ou a manipulação inadequada levam à perda de qualidade e segurança.
Realidade no Brasil
Um levantamento da SBR apontou que o país possui apenas 61 centros de terapia assistida, a maioria privada e concentrada na Região Sudeste. Destes, apenas 11 têm contrato com o SUS. A estimativa é que cerca de 20 mil pacientes necessitem de infusões endovenosas fornecidas pelo sistema público.
Pesquisa realizada pela Biored Brasil, em 2023, com 761 pacientes, revelou que:
- 10% não tinham acesso à aplicação;
- 46% não encontravam centro próximo ao local de residência;
- 55% pagavam entre R$ 150 e R$ 200 por aplicação, gerando forte impacto na renda familiar;
- Apenas 20% recebiam a aplicação em centros vinculados ao SUS.
Perspectivas do Ministério da Saúde
Em resposta às críticas, o Ministério da Saúde informou que estuda a criação de uma política nacional para estruturar centros de terapia assistida. A iniciativa está em fase de análise técnica e pode prever financiamento para estados e municípios ampliarem a rede, com credenciamento de serviços especializados.
“Tem pessoas que estão com o remédio em mãos, mas não têm onde aplicar. Isso não tem cabimento”, reforçou Fernandes, ao defender a urgência de regulamentação e financiamento específicos para essa assistência.
Fontes: Agência Brasil / Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) / Congresso Brasileiro de Reumatologia 2025 / Biored Brasil / Ministério da Saúde
Comentários