Um estudo conduzido por pesquisadores australianos revelou que dois dos medicamentos mais consumidos no mundo — o ibuprofeno e o paracetamol — podem estar associados ao aumento do risco de resistência bacteriana, um dos maiores desafios de saúde pública global.
De acordo com a pesquisa, publicada na revista Nature: Antimicrobials and Resistance, os fármacos, quando administrados isoladamente ou em combinação, favoreceram mutações em bactérias do tipo Escherichia coli (E.coli), tornando-as mais resistentes ao ciprofloxacino, antibiótico de primeira escolha contra diversas infecções. Além disso, o processo também ampliou a resistência a outros antibióticos de diferentes classes, ampliando o risco de falhas terapêuticas em casos de infecção.
Detalhes do experimento
Os testes foram realizados em laboratório, utilizando placas de Petri com amostras de E.coli aquecidas a 37 °C, temperatura média do corpo humano. Após cerca de 20 horas de exposição, os cientistas constataram que os medicamentos estimularam mutações, acelerando o crescimento bacteriano e elevando a resistência.
Embora o estudo não tenha sido conduzido diretamente em seres humanos, os pesquisadores ressaltam que os resultados devem servir de alerta, sobretudo em instituições de cuidados prolongados, como casas de repouso, onde pacientes idosos frequentemente recebem analgésicos em conjunto com antibióticos.
Declarações dos pesquisadores
A líder da pesquisa, Dra. Rietie Venter, especialista em resistência microbiana, explicou em entrevista ao Daily Mail:
“A resistência aos antibióticos não diz mais respeito apenas aos antibióticos. Este estudo é um lembrete claro de que precisamos considerar com cuidado os riscos do uso de múltiplos medicamentos, principalmente em ambientes de cuidados de longo prazo.”
Ela destacou ainda que os resultados não significam que os pacientes devem interromper o uso de ibuprofeno ou paracetamol:
“Isso não significa que devemos parar de usar esses medicamentos, mas precisamos estar mais atentos a como eles interagem com os antibióticos – e isso inclui olhar além das combinações de apenas dois fármacos.”
Outros medicamentos avaliados
O estudo também investigou o impacto de outros remédios de uso frequente, como diclofenaco (para artrite), furosemida (pressão alta), metformina (controle de glicose), atorvastatina (colesterol), tramadol (analgésico), temazepam (insônia) e pseudoefedrina (descongestionante). Nenhum deles apresentou o mesmo efeito observado com o ibuprofeno e o paracetamol.
Resistência antimicrobiana: um desafio global
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência antimicrobiana é responsável por aproximadamente 1,27 milhão de mortes por ano em todo o mundo. Já o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, considera o fenômeno “um dos maiores desafios de saúde pública do nosso tempo”.
Especialistas reforçam que os achados exigem mais investigações clínicas, mas ressaltam a necessidade de uso racional de medicamentos e o fortalecimento de políticas globais de combate à resistência antimicrobiana.
Fonte: Revista Nature: Antimicrobials and Resistance / Daily Mail / correio*
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