Acidentes de trânsito custaram quase R$ 450 milhões ao SUS em 2024, aponta Ipea

Em alta há 27 anos, custo dos acidentes de trânsito pressiona o orçamento do SUS e reforça debate sobre políticas de prevenção e financiamento.

Foto: Reprodução/Redes sociais.

O Sistema Único de Saúde (SUS) já gastou R$ 449,8 milhões apenas em 2024 com internações de vítimas de acidentes de trânsito. O dado, divulgado em reportagem do G1, foi obtido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base no banco de dados do Datasus, e escancara o peso crescente dos sinistros de trânsito sobre o orçamento público da saúde.

A curva de despesas hospitalares com acidentados no trânsito segue em ascensão há 27 anos, revelando uma tendência preocupante. Em 1998, o SUS desembolsou R$ 301,7 milhões para esses atendimentos; hoje, o valor está quase 50% maior em termos reais. Um dos maiores saltos foi registrado entre 2008 e 2009, quando os gastos pularam de R$ 280 milhões para R$ 386 milhões em apenas um ano. Nem mesmo a pandemia de Covid-19 conseguiu frear esse avanço: em 2020, com menos veículos circulando, os custos ainda atingiram R$ 404,9 milhões.

Além do impacto direto sobre a saúde pública, esses números estão ligados à ausência de repasses do antigo seguro obrigatório DPVAT, extinto em 2021. Antes de sua suspensão, 45% da arrecadação do DPVAT — cobrado anualmente no licenciamento de veículos — era direcionada ao SUS para cobrir atendimentos a vítimas de trânsito. Entre 2011 e 2020, o seguro injetou R$ 5,8 bilhões no sistema público, recurso que já não está mais disponível.

Em 2024, o governo federal chegou a propor a criação do SPVAT (Seguro Obrigatório para Proteção de Vítimas de Acidentes de Trânsito) como substituto, mas a ideia foi engavetada após forte pressão de governadores e parlamentares, que consideraram a proposta um novo encargo para motoristas. A suspensão do DPVAT foi aprovada pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) sob a justificativa de reduzir fraudes e custos de fiscalização.

Para especialistas, o cenário é alarmante. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), os acidentes de trânsito consomem de 1% a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países latino-americanos. No Brasil, com um PIB de R$ 11,7 trilhões, isso representa entre R$ 117 bilhões e R$ 351 bilhões por ano.

"Estamos gastando para reparar os danos da insegurança, em vez de investir na prevenção e garantir que vidas não sejam perdidas por essa causa", afirmou à reportagem do G1 o assessor regional em segurança viária da OPAS, Ricardo Pérez-Núñez.

O aumento progressivo nos custos evidencia a urgência de políticas públicas de prevenção, fiscalização e educação no trânsito. Sem fontes alternativas de financiamento como o extinto DPVAT, o SUS segue arcando sozinho com as consequências de um problema que vai além da saúde — envolvendo também mobilidade urbana, segurança viária e responsabilidade social.

Fonte: g1

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