Em pleno Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, a mensagem de esperança ganha força em Guanambi e região. No Hospital Geral de Guanambi (HGG), a equipe responsável pelo processo de doação trabalha diariamente para informar famílias, capacitar profissionais e esclarecer dúvidas sobre um gesto que pode representar a continuidade da vida para quem aguarda um transplante.
Em entrevista ao Fala Você Notícias, Jeruza Lélis, enfermeira e coordenadora da equipe de doação de órgãos e tecidos do Hospital Geral de Guanambi, explicou como funciona o trabalho realizado na unidade, os critérios para a doação e os principais motivos que levam famílias a recusarem a autorização.
Equipe atua na identificação e acolhimento das famílias
Segundo Jeruza, o serviço de doação de órgãos é regulamentado por normas específicas e tem papel fundamental em hospitais de grande porte, como o Hospital Geral de Guanambi, que possui emergência de porta aberta, atendimento a casos de trauma e neurológicos e duas unidades de terapia intensiva.
Entre as atribuições da equipe estão a informação e conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, o acompanhamento de pacientes em estado crítico, além da capacitação dos profissionais de saúde para o reconhecimento de possíveis doadores, acolhimento e humanização do atendimento às famílias.
A profissional destaca que falar sobre doação também significa falar sobre um momento de profunda dor. Afinal, não existe doação de órgãos sem que antes ocorra a morte do potencial doador.
Quais são os principais motivos para a família recusar a doação?
Um dos principais obstáculos apontados pela coordenadora é a dúvida sobre a vontade do familiar que morreu.
“Muitas famílias dizem: ‘Não sei se era isso que ele queria em vida’”, explicou Jeruza durante a entrevista.
Por isso, a campanha deste ano reforça uma mensagem direta: o “sim” precisa ser dito em vida.
No Brasil, a autorização para a doação após a morte depende do consentimento da família. Por isso, conversar previamente com pais, filhos, irmãos, cônjuges e demais familiares pode fazer toda a diferença quando uma situação de possível doação acontecer.
Outro receio frequente é o de que a retirada dos órgãos impeça a realização do velório ou deixe o corpo sem condições para o ritual de despedida. Jeruza esclarece que isso não acontece. Segundo ela, o corpo é entregue à família preservando as condições necessárias para o velório e o sepultamento.
Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
A possibilidade de doação depende da causa da morte e das condições clínicas do potencial doador.
Em casos de morte encefálica, podem ser avaliados órgãos como coração, fígado, rins e pulmões, entre outros, desde que estejam em condições adequadas para transplante.
Já quando ocorre uma parada cardiorrespiratória, a possibilidade de doação, conforme explicou a coordenadora, envolve tecidos, como as córneas, respeitando os critérios médicos estabelecidos.
As últimas grandes captações realizadas no Hospital Geral de Guanambi ocorreram em março. Na ocasião, foram captados rins e córneas e, em outro procedimento mencionado na entrevista, também houve captação destinada a válvula cardíaca, linfonodos e baço.
Morte encefálica não é coma
Um dos pontos destacados durante a entrevista foi a necessidade de esclarecer o que significa morte encefálica.
Jeruza explicou que o diagnóstico não ocorre de forma aleatória. O paciente precisa apresentar sinais clínicos compatíveis e passar por um protocolo rigoroso, que envolve avaliação médica e exames específicos.
O processo inclui exames clínicos realizados por médicos diferentes, em intervalos determinados, além de exames complementares. No Hospital Geral de Guanambi, o eletroencefalograma também integra esse processo, com posterior avaliação e laudo por profissionais habilitados.
A coordenadora reforçou que a morte encefálica representa a perda irreversível das funções do encéfalo e que o processo é regulamentado e segue critérios médicos e legais.
Uma corrida contra o tempo
Depois da confirmação da morte encefálica e da autorização familiar para a doação, começa uma verdadeira corrida contra o tempo para preservar a viabilidade dos órgãos.
De acordo com Jerusa, nas últimas captações realizadas na unidade, os procedimentos ocorreram em menos de 24 horas. A logística envolve equipes especializadas e transporte dos órgãos para os centros responsáveis pelos transplantes.
Segundo ela, quando a equipe de captação chega a Guanambi, todo o processo é organizado para que os órgãos possam seguir rapidamente para seus destinos.
Mais de 48 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil
A entrevista também chamou atenção para a dimensão da fila de transplantes no país. Jeruza afirmou que mais de 48 mil pessoas aguardam atualmente por um órgão no Brasil.
Para quem está nessa fila, o transplante pode representar a última possibilidade de tratamento e de continuidade da vida.
É justamente por isso que a campanha Setembro Verde procura transformar a doação em um assunto presente nas conversas familiares, antes que uma situação de morte aconteça.
“O sim que prevalece é o sim em vida”
Embora seja importante registrar a vontade de ser doador, Jerusa reforça que o diálogo com a família é fundamental.
Ter a vontade registrada em documentos pode ajudar os familiares a compreenderem a decisão, mas, no Brasil, a autorização familiar continua sendo determinante.
A campanha, portanto, deixa um convite simples: converse com sua família e diga claramente que você deseja ser um doador de órgãos.
“Hoje a gente é um doador, mas amanhã pode ser um receptor”, destacou Jerusa, lembrando que qualquer pessoa pode, em algum momento da vida, precisar de um transplante para si mesma ou para alguém que ama.
Uma corrente de solidariedade
A equipe de doação de órgãos e tecidos do Hospital Geral de Guanambi é formada por enfermeiras, assistente social, psicóloga, técnicos de enfermagem e médico, além de contar com o apoio da direção e de diversos setores do hospital.
Para Jerusa, o processo depende da união de todos, desde os profissionais da UTI até aqueles que atuam na recepção, higienização, alimentação e demais setores da unidade.
A mensagem do Setembro Verde, portanto, vai além da saúde: trata-se de solidariedade, empatia e amor ao próximo.
Doar órgãos é permitir que, mesmo diante da dor de uma perda, outra família tenha a oportunidade de receber esperança e continuar uma história.
Assista à entrevista completa
Quer entender como funciona o diagnóstico de morte encefálica, quais órgãos podem ser doados, quais são os principais medos das famílias e por que o “sim” precisa ser dito em vida?
Assista à entrevista completa com Jeruza, coordenadora da equipe de doação de órgãos e tecidos do Hospital Geral de Guanambi, no YouTube Neide Lu Fala Você Notícias — uma conversa esclarecedora que pode mudar a forma como você e sua família enxergam a doação de órgãos.
Talvez o “sim” que você decide dizer hoje seja a esperança que alguém precisa para continuar vivendo amanhã.
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