Um levantamento inédito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) revelou que, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o Ministério da Educação (MEC) autorizou a abertura de 77 novos cursos de medicina no Brasil, o que representa 4.412 novas vagas de graduação. No mesmo período, 20 cursos já existentes foram autorizados a ampliar suas turmas, somando 1.049 vagas adicionais.
Com isso, o país atingiu a marca de 494 cursos de medicina, sendo 80% deles privados, totalizando 50.974 vagas. O Brasil agora ocupa a segunda posição mundial em número de escolas médicas, atrás apenas da Índia — que possui cerca de 600 cursos para uma população de 1,4 bilhão de habitantes.
Expansão sem precedentes
O estudo, conduzido pelo grupo Demografia Médica no Brasil (FMUSP), apontou que a Bahia, o Pará e São Paulo lideram o ranking de novos cursos, com oito unidades cada. Em seguida, aparecem Ceará e Maranhão, com sete. O Nordeste concentra 29 das novas autorizações, representando 37,7% do total.
Segundo o pesquisador Mario Scheffer, coordenador do grupo, a velocidade dessa expansão não encontra paralelo internacional:
“Nenhum país do mundo passou por uma ampliação tão acelerada de vagas de medicina na última década. Não há justificativa técnica para esse crescimento desordenado.”
Ele aponta que a ampliação excessiva pode comprometer a qualidade da formação médica, especialmente em municípios sem estrutura hospitalar ou docente adequada para ensino prático.
MEC e entidades médicas divergem
O MEC justificou, em nota, que desde a criação da Lei do Mais Médicos (2013), a abertura de novos cursos é feita por chamamento público, com base em critérios de necessidade social e capacidade de infraestrutura local. A pasta afirma que, entre 2023 e 2025, as novas autorizações em instituições privadas ocorreram por cumprimento de decisões judiciais.
Já entidades médicas, como a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), classificam o crescimento como “irracional e preocupante”.
“A expansão de escolas privadas sem estrutura adequada tem gerado médicos mal preparados, atuando em condições precárias na atenção básica”, critica César Eduardo Fernandes, presidente da AMB.
A entidade defende a criação de um Exame Nacional de Proficiência em Medicina, semelhante ao da OAB, para avaliar a competência dos recém-formados. O projeto de lei que cria o exame tramita no Senado desde 2024 e é apoiado por 96% da população, segundo o Datafolha.
Medidas de controle e supervisão
Para tentar garantir a qualidade do ensino, o MEC informou que aplicará anualmente o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que começará ainda este ano. Cursos com baixo desempenho poderão sofrer sanções administrativas, como:
- Suspensão de novos contratos do Fies e do Prouni;
- Redução ou congelamento de vagas;
- Proibição temporária de novos ingressos;
- Fiscalizações presenciais em 2026.
Scheffer, contudo, alerta que a eficácia dependerá da fiscalização real:
“É positivo ter novas diretrizes e avaliações, mas ainda não sabemos se haverá, de fato, punição para cursos mal avaliados.”
Mercado e suspeitas de lobby
O estudo da FMUSP também aponta pressões políticas e empresariais como possíveis fatores por trás da expansão.
“Há lobbies de prefeitos, parlamentares e grandes grupos privados de ensino. As escolas de medicina viraram a galinha dos ovos de ouro do mercado educacional”, diz Scheffer.
O preço médio das mensalidades de medicina no Brasil é de R$ 10,2 mil, podendo variar entre R$ 5,1 mil e R$ 15,7 mil.
Expansão fora das capitais
Outro ponto de destaque é o crescimento em municípios do interior, que passaram a abrigar mais de um curso de medicina, como Vitória da Conquista e Luís Eduardo Magalhães (Bahia), Sobral e Tianguá (Ceará), e Cariacica e São Mateus (Espírito Santo).
O MEC afirma que não autoriza cursos fora do chamamento público, salvo quando há determinação judicial.
Fonte: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) / Ministério da Educação / Associação Médica Brasileira (AMB) / Conselho Federal de Medicina (CFM) / Bahia Notícias
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