As leucemias agudas — formas agressivas de câncer do sangue que ainda enfrentam altas taxas de resistência e recaída — ganharam novas perspectivas de tratamento a partir de uma pesquisa realizada no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP). O estudo, conduzido pelo biomédico Hugo Passos Vicari em seu doutorado, investigou diferentes estratégias para bloquear a multiplicação das células doentes, explorando desde o reposicionamento de fármacos já aprovados até a síntese de novas moléculas.
O alvo principal do trabalho foram os microtúbulos, estruturas que funcionam como o “esqueleto” celular, responsáveis pelo movimento e divisão das células. “Ao atacar essa estrutura, conseguimos bloquear a proliferação e induzir a morte celular”, explica Vicari.
Três linhas de investigação
O projeto seguiu três caminhos:
- Avaliação de proteínas associadas aos microtúbulos – A pesquisa mostrou que a proteína Stathmin 1 (STMN1) está altamente expressa em células leucêmicas e ligada ao crescimento tumoral. Quando silenciada, reduziu a capacidade de proliferação, sugerindo que pode ser usada como biomarcador e alvo terapêutico.
- Reposicionamento de medicamentos – O estudo testou drogas já existentes, como o Paclitaxel, usado contra tumores sólidos, que demonstrou eficácia em casos resistentes ao tratamento padrão com ácido All-Trans Retinoico (Atra). Outra aposta foi a Eribulina, aprovada para câncer de mama, que mostrou toxicidade seletiva contra células leucêmicas e baixa toxicidade em células normais. Além disso, a combinação da Eribulina com o Elacridar superou mecanismos de resistência, um dos grandes desafios da oncologia.
- Síntese de molécula inédita – Em colaboração com a Unicamp, o grupo desenvolveu o composto C2E1, pertencente à classe dos ciclopenta[β]indóis. Nunca antes testado contra leucemias, o composto demonstrou forte efeito citotóxico contra células malignas, preservando as saudáveis, além de não apresentar resistência cruzada com outros quimioterápicos.
Reconhecimento científico
O impacto da pesquisa rendeu ao estudo o Prêmio Capes de Tese 2025, na área de Farmacologia. Para Vicari, a conquista é um marco coletivo: “Representa o reconhecimento do esforço de toda a equipe em buscar alternativas mais eficazes para pacientes que não respondem às terapias disponíveis.”
O orientador, professor João Agostinho Machado Neto, ressalta que o trabalho abre portas para avanços rápidos: “O fato de algumas drogas já serem aprovadas em humanos acelera a possibilidade de novos ensaios clínicos em leucemias agudas.”
Com a combinação de inovação científica e estratégias que aproveitam medicamentos já conhecidos, o estudo reforça a importância da pesquisa nacional no desenvolvimento de novas abordagens contra o câncer e oferece esperança a pacientes que enfrentam os maiores desafios no tratamento da doença.
Fontes: Instituto de Ciências Biomédicas da USP / Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) / Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) / CFF
Comentários