Quase 40% dos médicos que atuam no Nordeste apresentam algum tipo de transtorno mental, de acordo com a pesquisa Qualidade de Vida do Médico, realizada pelo Research & Innovation Center da Afya. O levantamento, divulgado com exclusividade pelo Jornal Correio, expõe um cenário preocupante para uma categoria essencial: longas jornadas, escassez de insumos, estresse diário e falta de tempo para atividades pessoais ou de convívio familiar.
No Brasil, a situação é ainda mais grave: 45% dos médicos já receberam diagnóstico de algum transtorno mental. Para os pesquisadores, a diferença entre os percentuais pode estar relacionada à menor procura por atendimento no Nordeste, o que reduziria o número de diagnósticos confirmados.
Segundo Eduardo Moura, diretor do Research Center da Afya, a cultura de não buscar ajuda dificulta a detecção precoce de problemas. “Talvez esteja havendo uma procura menor na região. É um fator alarmante que mostra a necessidade de mudar a visão de que o médico precisa trabalhar o tempo inteiro”, afirmou.
Depressão, ansiedade e burnout
Na amostra nacional, 22,3% dos médicos já foram diagnosticados com depressão e estão em tratamento. No Nordeste, esse índice cai para 15%. Sintomas de ansiedade e burnout também aparecem em menor número na região, mas especialistas alertam que isso não significa menos adoecimento, e sim menor acompanhamento.
Além disso, a pesquisa indica pior percepção de qualidade de vida entre os nordestinos. Enquanto 36% dos médicos no Brasil dizem estar muito satisfeitos com sua saúde, no Nordeste esse número é menor.
Más condições de trabalho
O Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) reconhece o aumento dos casos, atribuindo-os a más condições de trabalho, excesso de carga laboral e insegurança profissional. “O médico trabalha muito, se estressa e, muitas vezes, ainda enfrenta atrasos ou calotes salariais”, alerta o presidente do Cremeb, Otávio Marambaia.
O estudo mostra que a sobrecarga, já existente antes da pandemia, se intensificou desde então. Falta de sono adequado, ausência de rotina saudável e baixa prática de atividade física agravam o quadro.
Mulheres e jovens mais afetados
Entre os grupos mais vulneráveis estão mulheres e médicos jovens. As médicas são maioria nos diagnósticos e tratamentos: 25,1%, contra 18,2% dos homens. A dupla jornada — entre carreira e família — é apontada como um dos principais fatores de desgaste.
Os jovens médicos, por sua vez, costumam ocupar postos de trabalho mais precários, com menores remunerações e maior carga de estresse. Além disso, a formação inadequada em alguns casos contribui para a insegurança e desgaste emocional no início da carreira.
Mobilização e debate
Diante do cenário, o Cremeb tem promovido debates e eventos sobre o tema, como o 1º Fórum Cremeb Mulher, previsto para a próxima sexta-feira (3), que discutirá a saúde mental e o protagonismo feminino na medicina.
Para Marambaia, a mudança começa por denunciar más condições de trabalho e fortalecer redes de apoio. “É preciso valorizar a saúde do médico para que ele consiga cuidar melhor da saúde do paciente”, concluiu.
Fontes: Pesquisa Qualidade de Vida do Médico – Research & Innovation Center / Afya / Eduardo Moura, diretor do Research Center da Afya / Otávio Marambaia, presidente do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) / Jornal Correio
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