Banco Central prevê juros altos por longo período e admite novas altas para conter inflação

Com Selic mantida em 15% ao ano, ata do Copom indica política monetária rígida até que expectativas de inflação sejam ancoradas, mesmo com desaceleração da economia e pressões políticas.

Foto: Divulgação/Banco Central.

O Banco Central (BC) sinalizou que os juros elevados devem permanecer por um período prolongado, podendo até mesmo subir novamente se necessário. A mensagem foi transmitida na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (23), após a manutenção da Selic em 15% ao ano.

Segundo o documento, a prioridade é assegurar que a inflação convirja para a meta de 3%, um desafio diante de vetores inflacionários persistentes e da desancoragem das expectativas de médio e longo prazo.

Inflação resistente apesar de alívio parcial

A ata reconhece avanços recentes, como a queda de preços de alimentos e bens industrializados, favorecida pela valorização do real e pela redução das commodities. Porém, o quadro ainda preocupa: a inflação de serviços segue pressionada pelo mercado de trabalho aquecido e pela demanda firme.

Os núcleos de inflação, que medem tendências ao excluir itens voláteis, permanecem acima do nível compatível com a meta. O Copom afirmou que esse cenário justifica uma política monetária contracionista por mais tempo.

Expectativas seguem acima da meta

O Boletim Focus projeta inflação de 4,83% em 2025, 4,29% em 2026, 3,90% em 2027 e 3,70% em 2028 — sempre acima da meta de 3%. Para o BC, essas previsões desancoradas ampliam a necessidade de manter juros altos.

“Em um ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo”, diz a ata.

Efeitos sobre a economia

A política de juros altos já mostra impacto:

- Crédito mais caro e arrefecimento na concessão de financiamentos;

- Consumo em desaceleração, de acordo com pesquisas setoriais-

Mercado de trabalho ainda resistente, mas com tendência de moderação.

Para o Copom, esse desaquecimento é essencial para equilibrar oferta e demanda e reduzir pressões inflacionárias.

Cenário internacional influencia decisão

Embora o Federal Reserve (Fed) tenha iniciado cortes de juros nos Estados Unidos, o ambiente externo segue instável. A política econômica americana sob o governo Donald Trump, com tarifas adicionais e expansão fiscal, pode manter a inflação global elevada.

Por outro lado, a valorização do real tem ajudado a reduzir parte da inflação doméstica, aliviando custos de importados.

Projeções e compromisso

O BC projeta que o IPCA só atingirá 3,4% no 1º trimestre de 2027, ainda acima da meta. Isso mostra que a convergência da inflação será lenta e custosa para a atividade econômica.

O Copom reafirmou o compromisso com o regime de metas e deixou em aberto a possibilidade de novas altas da Selic:

“O Comitê seguirá atento e não hesitará em retomar o ciclo de alta se julgar apropriado.”

Pressão política e dilema econômico

A manutenção da Selic em 15% reforça a tensão entre o Banco Central e o governo federal. Enquanto o Executivo aposta em estímulos fiscais para impulsionar o crescimento, o BC insiste em manter a política monetária rígida para preservar a credibilidade.

Esse impasse tende a marcar o debate econômico nos próximos meses: de um lado, o custo de frear a economia; de outro, a necessidade de consolidar o controle da inflação.

Fonte: Ata da  reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) – Banco Central do Brasil


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