Treinar em excesso pode provocar alterações na química cerebral e afetar mecanismos relacionados à memória e à regulação das emoções. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado em outubro na revista Neuroscience.
A pesquisa identificou mudanças nos níveis de dopamina no hipocampo, região do cérebro associada a funções como memória e processamento emocional. Os cientistas investigaram os efeitos de exercícios até a exaustão e de períodos prolongados de treinamento intenso.
Dopamina apresentou alterações após esforço extremo
Diferentemente do que prevê a teoria clássica da fadiga central, os pesquisadores não encontraram mudanças significativas nos níveis de serotonina. As principais alterações foram observadas na dopamina, neurotransmissor envolvido em diferentes funções cerebrais.
Segundo os resultados, as oscilações dessa substância podem estar relacionadas a sinais de sobretreinamento, como dificuldade para dormir, estado de alerta elevado durante o repouso e recuperação inadequada após os exercícios.
Também foram identificadas possíveis associações entre a atividade relacionada à produção de dopamina, processos inflamatórios no cérebro e comportamentos semelhantes à ansiedade nos animais estudados.
Experimentos foram realizados com camundongos
O estudo utilizou camundongos machos de oito semanas de idade, submetidos a dois protocolos de exercício. No primeiro, os animais correram até a exaustão. Após a atividade, os pesquisadores observaram aumento da concentração de dopamina no tecido cerebral e redução da atividade da tirosina hidroxilase, enzima envolvida na produção do neurotransmissor.
No segundo experimento, os animais passaram por oito semanas de treinamento com intensidade progressivamente maior. A partir da quarta semana, foi registrada uma queda no rendimento físico. Mesmo 48 horas depois do último teste, os níveis de dopamina permaneceram elevados durante o repouso, acompanhados de aumento na expressão da enzima relacionada à sua produção.
Pesquisa tem limitações
Os pesquisadores ressaltam que os resultados devem ser interpretados com cautela. A análise mediu a dopamina no tecido cerebral como um todo, sem identificar precisamente como o neurotransmissor estava sendo utilizado nas conexões entre os neurônios.
Além disso, o estudo foi realizado apenas com camundongos machos, o que impede a aplicação direta das conclusões a mulheres e homens. As possíveis relações entre inflamação cerebral e alterações comportamentais também precisam ser confirmadas em novas pesquisas.
Os achados reforçam a importância de investigar os efeitos do treinamento excessivo, mas ainda não comprovam que o mesmo mecanismo ocorra em seres humanos.
Fonte: Estudo de pesquisadores da USP e da Unicamp, publicado na revista Neuroscience
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