A produção científica desenvolvida na universidade pode ultrapassar os muros acadêmicos e provocar transformações concretas nas comunidades. Esse foi um dos principais pontos da entrevista conduzida por Neide Lu no Fala Você Notícias, de hoje (14), com a professora Dra. Fausta Porto e as pesquisadoras Iara Oliveira e Adeilma Santos, que apresentaram projetos relacionados à igualdade racial no ensino superior, educação financeira, ações afirmativas e educação escolar quilombola.
Os trabalhos foram apresentados em eventos científicos, entre eles o COPENE e a SBPC 2026, levando para espaços de discussão nacional pesquisas desenvolvidas no âmbito da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Durante a conversa, as pesquisadoras destacaram a importância de fazer com que o conhecimento produzido dentro das universidades circule também entre escolas, comunidades quilombolas e a sociedade.
Pesquisa acadêmica conectada à realidade das comunidades
Orientadora na pós-graduação e em projetos de iniciação científica, a Dra. Fausta Porto explicou que seu trabalho surgiu de uma inquietação relacionada à forma como a questão racial é abordada nas diferentes áreas do conhecimento.
A pesquisa envolve estudantes de áreas como Pedagogia, Direito e Administração, criando possibilidades de diálogo entre formação acadêmica, políticas de ações afirmativas e igualdade racial.
Segundo a professora, o trabalho busca compreender como a questão racial aparece nos processos formativos e identificar possíveis ausências ou abordagens pontuais sobre o tema nos cursos de graduação e pós-graduação.
A proposta também parte de uma perspectiva coletiva de produção do conhecimento. Para Fausta, ninguém desenvolve uma pesquisa isoladamente: professores, estudantes e comunidades constroem juntos novas possibilidades de compreensão da realidade.
Educação escolar quilombola: olhar para as potencialidades
A pesquisadora Adeilma Santos desenvolve estudos relacionados às comunidades quilombolas de Queimadas e Morro de Dentro, em Guanambi, com atenção especial às crianças no contexto escolar.
A pesquisa investiga as políticas curriculares e as diretrizes da educação escolar quilombola a partir da perspectiva das próprias crianças e das lideranças comunitárias.
Um dos pontos destacados por Adeilma é a necessidade de mudar o olhar sobre essas comunidades. Em vez de concentrar a análise apenas no que falta, a pesquisadora defende que é fundamental reconhecer aquilo que as escolas e as comunidades já constroem para fortalecer a identidade racial e quilombola.
A pesquisa ainda está em andamento e envolve entrevistas, oficinas e diálogo com lideranças e profissionais da educação. O próximo passo é retornar às escolas para compartilhar as percepções e os dados construídos durante o trabalho.
Crianças quilombolas e o papel da escola
Um dos questionamentos levantados pela pesquisa é sobre a relação das crianças quilombolas com a escola.
Adeilma relatou que, durante o trabalho de campo, percebeu que a instituição escolar aparece pouco nas narrativas das crianças. A partir disso, surge uma questão fundamental: se algumas crianças demonstram pouco interesse pela escola, qual é a importância que essa instituição ocupa em suas vidas?
A resposta ainda está sendo construída pela pesquisa.
A proposta é compreender essa relação sem partir de conclusões antecipadas, considerando também a realidade da comunidade, suas tradições, relações familiares, identidade e formas próprias de organização.
Educação financeira também é uma questão de autonomia
A pesquisadora Iara Oliveira, mulher quilombola e mestranda, apresentou uma pesquisa sobre finanças pessoais e população negra, com foco em educação financeira e mulheres negras quilombolas.
Para ela, falar sobre educação financeira não significa apenas ensinar a poupar dinheiro.
A pesquisa busca compreender a relação das mulheres com o dinheiro, suas estratégias de geração de renda, planejamento financeiro, políticas públicas e as potencialidades econômicas existentes dentro das próprias comunidades.
Um dos aspectos identificados foi o silenciamento em torno do dinheiro.
Muitas mulheres relatam dificuldades para falar sobre sua situação financeira ou sobre aquilo que produzem e podem comercializar. A pesquisa, entretanto, tem possibilitado a abertura desse diálogo.
Pesquisa que provoca mudanças
Iara relatou que o contato com a comunidade já começou a produzir mudanças. A partir das oficinas e dos diálogos, algumas participantes passaram a refletir sobre formas de guardar dinheiro, criar novas fontes de renda e valorizar produtos desenvolvidos dentro da própria comunidade.
A experiência mostra uma característica importante da chamada pesquisa-ação: pesquisar também pode significar agir e transformar.
Nesse processo, a pesquisadora deixa de ser apenas alguém que observa uma realidade e passa a construir conhecimento em diálogo com as pessoas que fazem parte daquele contexto.
Igualdade racial também passa pela literatura
Outro projeto citado na entrevista é desenvolvido por Fernanda, orientanda da Dra. Fausta Porto, com foco em igualdade racial e literatura.
O trabalho utiliza oficinas realizadas em escolas para discutir temas como letramento racial, ancestralidade, racismo, dignidade e equidade.
A experiência também evidencia o interesse dos professores em compreender melhor como abordar a temática racial em sala de aula, incluindo a literatura e as diferentes formas de conhecimento produzidas pelas populações negras.
A professora Fausta ressaltou ainda que a educação escolar quilombola não deve ser compreendida como algo destinado somente aos estudantes quilombolas.
Conhecer diferentes comunidades, suas histórias, modos de vida e formas de organização contribui para que todos os estudantes compreendam que as diferenças culturais representam singularidades, e não hierarquias.
Conhecimento que sai dos muros da universidade
A entrevista reforçou uma mensagem central: a pesquisa acadêmica ganha ainda mais significado quando consegue dialogar com a sociedade.
As experiências apresentadas pelas pesquisadoras mostram que a universidade pode atuar não apenas na produção de artigos e trabalhos científicos, mas também na formação de professores, fortalecimento de identidades, valorização das comunidades tradicionais e construção de novas perspectivas para estudantes e moradores.
A participação nos eventos científicos de 2026 também representa uma oportunidade de ampliar esse debate e mostrar, em âmbito nacional, pesquisas realizadas no interior da Bahia.
Mais do que apresentar resultados, as pesquisadoras levaram para os espaços acadêmicos histórias, experiências e conhecimentos construídos junto às comunidades.
A conversa conduzida por Neide revela detalhes das pesquisas, os desafios encontrados pelas estudantes, a importância das ações afirmativas para a permanência de estudantes quilombolas no ensino superior e como a pesquisa pode contribuir para transformar escolas e comunidades.
Quer entender o que muda quando a universidade deixa de apenas pesquisar as comunidades e passa a aprender com elas? Então assista à entrevista completa no YouTube do Neide Lu Fala Você Notícias e descubra as histórias e os resultados por trás dessas pesquisas.
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