Pesquisadora da Embrapa entre as 100 mulheres mais poderosas do agro revela tecnologia que funciona como “exame de sangue do solo”

Iêda de Carvalho Mendes foi reconhecida pela Forbes Brasil em 2026. Em entrevista ao Fala Você Notícias, ela explicou como a BioAS ajuda produtores a avaliar a saúde do solo e melhorar a produtividade agrícola.

Iêda de Carvalho Mendes, cientista.

A pesquisadora Iêda de Carvalho Mendes, da Embrapa Cerrados, integra a lista das 100 Mulheres Poderosas do Agro de 2026, da Forbes Brasil, e lidera pesquisas que estão transformando a maneira de avaliar a saúde dos solos agrícolas. Em entrevista ao programa Fala Você Notícias, nesta quarta (04), ela apresentou a BioAS, tecnologia desenvolvida pela Embrapa que funciona como um “exame de sangue do solo”, permitindo identificar alterações na atividade biológica da terra e orientar produtores na adoção de práticas mais sustentáveis.

Ciência brasileira que transforma a agricultura

Com uma trajetória de quase quatro décadas dedicadas à pesquisa científica, Iêda de Carvalho Mendes conquistou reconhecimento nacional e internacional pelo trabalho desenvolvido na área de saúde do solo.

A pesquisadora explicou que a tecnologia desenvolvida pela Embrapa permite identificar se o solo está saudável, adoecendo, doente ou em processo de recuperação. A avaliação é importante porque um solo saudável apresenta melhores condições para produzir alimentos, armazenar água, realizar a ciclagem de nutrientes e contribuir para o sequestro de carbono.

Durante a entrevista, Iêda destacou que, em pesquisas com soja, foram identificados resultados de até 515 quilos a mais por hectare em solos saudáveis, quando comparados aos solos doentes.

Segundo ela, cuidar da saúde do solo é fundamental para enfrentar os desafios das mudanças climáticas e garantir a produtividade das lavouras no futuro.

BioAS: um exame de sangue para o solo

Um dos principais destaques da conversa foi a BioAS, tecnologia desenvolvida após mais de 20 anos de pesquisas e lançada pela Embrapa em 2020.

A metodologia utiliza duas enzimas presentes no solo: a beta-glicosidase, relacionada ao ciclo do carbono, e a arilsulfatase, relacionada ao ciclo do enxofre.

De acordo com Iêda, essas enzimas funcionam como indicadores biológicos e permitem identificar alterações na saúde do solo antes que os problemas se manifestem por meio da perda de produtividade.

A pesquisadora fez uma comparação para facilitar o entendimento dos produtores: assim como um exame de sangue pode identificar alterações no organismo antes do aparecimento de sintomas, a BioAS permite detectar problemas na saúde do solo que não aparecem nas análises tradicionais de fertilidade. Isso porque uma terra pode apresentar bons níveis de nutrientes, como fósforo, cálcio e potássio, mas ter sua atividade biológica comprometida.

Como o produtor pode ter acesso à tecnologia?

A BioAS já conta com uma rede de inovação formada por 33 laboratórios comerciais parceiros em diferentes regiões do Brasil.

Esses laboratórios são capacitados pela Embrapa para realizar as análises. Depois, os resultados são encaminhados à instituição, que faz a interpretação e devolve ao produtor um laudo sobre a saúde do solo.

Durante a entrevista, Iêda também apresentou a Plataforma Saúde do Solo BR, lançada durante a COP30, em Belém, em novembro de 2025.

A iniciativa reúne informações sobre a saúde dos solos brasileiros e permite consultar dados por município e estado, contribuindo para pesquisas, monitoramento e decisões relacionadas ao manejo agrícola. A plataforma pode ser acessada pelo endereço: https://saudedosolo.embrapa.gov.br/inicio

Como recuperar um solo doente?

Ao explicar como o produtor pode melhorar a saúde de uma área agrícola, Iêda ressaltou que não existe um produto milagroso capaz de transformar um solo doente em saudável da noite para o dia.

A recuperação depende da adoção de práticas de manejo que favoreçam a vida no solo e imitem os processos da natureza.

Entre as principais recomendações estão:

- Evitar o revolvimento do solo;

- Utilizar plantas de cobertura;

- Fazer rotação de culturas;

- Manter plantas vivas cobrindo o solo durante todo o ano;

- Adotar sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta;

- Aumentar a presença de matéria orgânica e o aporte de carbono.

A pesquisadora destacou a braquiária como uma das plantas de cobertura importantes para melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

Segundo ela, pesquisas realizadas em Mato Grosso demonstraram que, após a introdução da braquiária em áreas com solos doentes, já era possível observar reações biológicas em cerca de seis meses. Entre dois e três anos, os níveis de produtividade começaram a se equiparar aos de outros tratamentos com solos saudáveis.

Oeste da Bahia também pode se beneficiar

A entrevista trouxe uma abordagem importante para a realidade agrícola da Bahia, especialmente nas regiões produtoras de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães. Iêda explicou que o uso de plantas de cobertura, como a braquiária, pode ser integrado aos sistemas de produção de soja, milho e algodão.

A pesquisadora ressaltou que manter o solo protegido, evitar deixá-lo exposto e favorecer a entrada de carbono são medidas importantes para preservar a atividade biológica e aumentar a resistência das lavouras aos períodos de seca e ao excesso de chuvas.

Ela também destacou que a adoção dessas práticas já é observada em propriedades do Oeste baiano, mas ainda existe espaço para ampliar o manejo conservacionista.

66% das amostras apresentam solos saudáveis ou em recuperação

Durante a conversa, Iêda revelou um dado importante do banco de dados da saúde do solo mantido pela Embrapa: aproximadamente 66% das amostras analisadas apresentam solos em condições saudáveis ou em recuperação.

Apesar do resultado positivo, a pesquisadora afirmou que a meta é avançar ainda mais na adoção de práticas conservacionistas, para que um número cada vez maior de propriedades tenha solos saudáveis.

Reconhecimento internacional valoriza a ciência brasileira

Em 2026, Iêda também recebeu o Prêmio Norman Borlaug de Sustentabilidade, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

A pesquisadora destacou que reconhecimentos como esse não representam apenas uma conquista individual, mas ajudam a dar visibilidade ao trabalho de toda a equipe envolvida no desenvolvimento das pesquisas.

Ela também lembrou que a tecnologia brasileira vem despertando interesse internacional. Em 2013, a equipe realizou uma visita técnica aos Estados Unidos, onde teve contato com o pesquisador Douglas Karlen, referência nos estudos sobre saúde do solo. Em 2024, participou da publicação de um livro sobre saúde do solo e agricultura conservacionista no Brasil, a convite da Sociedade Americana de Ciência do Solo.

A pesquisadora também relatou intercâmbios científicos na China e nos Estados Unidos e uma agenda de cooperação internacional.

Mulheres na ciência e no agronegócio

Ao falar sobre sua trajetória e a presença feminina no agronegócio, Iêda defendeu que mais mulheres precisam ocupar espaços de liderança e decisão. Ela incentivou meninas e jovens interessadas em agronomia e pesquisa científica a investirem na formação, estudarem e seguirem suas vocações.

Para a pesquisadora, a diversidade de profissionais e experiências fortalece a ciência e amplia a capacidade de enfrentar os desafios da agricultura.

O sonho para os próximos 15 anos

Mesmo depois de décadas de pesquisa e importantes reconhecimentos, Iêda afirmou que ainda tem um grande objetivo profissional: consolidar a BioAS como uma ferramenta presente na rotina dos agricultores brasileiros.

A meta é fazer com que cada produtor compreenda que, além da análise química, também pode avaliar a biologia do solo e interpretar os sinais que a terra apresenta.

Em uma mensagem aos produtores rurais da Bahia e de todo o Brasil, a pesquisadora deixou uma orientação: “Cola na natureza que é sucesso”.

Ela defendeu a diversidade de plantas, a cobertura permanente do solo, a rotação de culturas e a redução do revolvimento da terra como caminhos para uma agricultura mais produtiva e sustentável.

A entrevista mostrou que a ciência brasileira está desenvolvendo soluções capazes de transformar o presente e preparar a agricultura para os desafios das próximas gerações.

Como uma pesquisadora brasileira está ajudando a transformar a agricultura mundial? O que é o exame de sangue do solo? Como o produtor rural pode descobrir se sua terra está saudável? Essas e outras questões foram respondidas pela pesquisadora Iêda de Carvalho Mendes, da Embrapa Cerrados, em um bate-papo especial com Neide Lu.

Assista à entrevista completa no YouTube, no canal Neide Lu Fala Você Notícias. Inscreva-se no canal, deixe seu comentário e compartilhe essa conversa que valoriza a ciência, a inovação, o agronegócio brasileiro e o protagonismo feminino!


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